Q 65

Joop Roelofs, Frank Nuyens, Willem Bieler, Peter Vink e Jay Baar pareciam mais uma gangue de proscritos e desajustados fazendo música rude, não convencional, do que outra coisa.

por Bento Araujo     25 maio 2015

Q65“Os jornais traziam fotos e artigos enormes sobre como o clube foi destruído pelos nossos fãs. Dali pra frente, era só a gente subir ao palco pra todo mundo começar a quebrar o pau na plateia, pareciam loucos”. Essa declaração do guitarrista Joop Roelofs está no livro Q65 – The Book, de autoria do jornalista Pim Scheelings, e define, em poucas palavras o que a música dessa banda representava na Holanda dos anos 1960.

Joop Roelofs, Frank Nuyens, Willem Bieler, Peter Vink e Jay Baar pareciam mais uma gangue de proscritos e desajustados fazendo música rude, não convencional, do que outra coisa. A influência era o R&B britânico e selvagem de novos grupos como Yardbirds, Rolling Stones e Pretty Things. Tudo bem que a pronúncia em inglês do vocalista Wim Bieler não era lá essas coisas. A intenção era o que importava e intenção eles tinham de sobra.

No início de 1966 o Q65 lançou seu primeiro compacto, “You’re The Victor”, seguido de “The Life I Live”, o primeiro sucesso efetivo, com a banda gravando um vídeo para TV e indo até para a Inglaterra promover a canção num bote motorizado. Deu certo, voltaram com o disquinho no topo das paradas e com uma multidão de fãs esperando-os na praia de Scheveningen, nas redondezas de Den Haag.

Logo estavam prontos para registrar seu primeiro elepê, Revolution, nome mais que apropriado, levando-se em consideração o que vinham fazendo no cenário holandês da época. Gravado “ao vivo em estúdio” e em quatro canais, Revolution retratava muito do que o Q65 aprontava pelos palcos, um rock garageiro com um pé no blues e outro na psicodelia que estava explodindo. Sons próprios e algumas versões, tudo colaborando para Revolution se tornar exatamente o que se tornou – um clássico do rock de garagem mundial.

Lançado pelo selo Decca, o disco marcou também a primeira vez que um compressor/limiter foi utilizado no rock holandês. O equipamento forneceu uma agressividade extra ao som da banda, que o utilizou em segredo, pois a patente do compressor pertencia à Philips.

Revolution foi imediatamente bem recebido pela imprensa local, o que significava que o Q65 poderia fazer o que quisesse dali pra frente, inclusive tocar em qualquer lugar. As apresentações, consequentemente ficaram cada vez mais intensas e caóticas. Alguns veículos publicaram que o grupo não passava de um bando de drogados, violentos e lunáticos. Eles gostavam da reputação, pois revertia em vendas de discos.

Quando tocaram no interior da Holanda utilizaram um macete: Joop Roelofs gritava ao microfone a palavra “hoibroi”, uma gíria local que significa algo como “o feno queima”. Bastava isso para o público começar a arremessar cadeiras e mesas uns nos outros. Selvageria pura, algo visto naqueles tempos somente em lugares como Detroit ou no Marquee Club, durante uma apresentação selvagem do The Who. Cada show virava um grande tumulto, com o vocalista Wim Bieler mergulhando no público, como Iggy Pop popularizou alguns anos depois.

Novos compactos foram lançados, com a banda optando em cantar sobre ódio ao invés de amor – isso em pleno ano de 1967, auge do Flower Power!

A ousadia do Q65 era rebatida com conservadorismo: a maioria queria que a banda fizesse algo nos moldes do primeiro sucesso deles, “The Life I Live”. Era o preço de se tornar uma grande banda.

Joop Roelofs conta: “Esse era o lado ruim em se tornar famoso. As pessoas queriam impor suas vontades sobre nós. Nosso intuito era compor uma canção diferente da outra, mas todos queriam ouvir o mesmo de sempre. Criatividade não é algo apreciado nesse negócio, o dinheiro é que manda. Para ter sucesso, você teria que ser superficial, como toda a cena – só assim era possível fazer parte dela”.

Para promover o compacto de “World of Birds”, lançaram mais uma campanha publicitária bem sacada do grupo em parceria com a Radio Veronica. Saíram pelo país rodando em dois carrões norte-americanos, dando compactos de presente para quem cruzasse com eles. Quando chegaram com seus Cadillacs em The Hague, a histeria foi total. Os fãs cercaram os carros num parque, debaixo da maior chuva. Todos queriam o novo compacto da banda. Era a glória, no meio da lama.

Ainda em 1967, a Decca soltou o clássico EP Kjoe Blues, mostrando que o Q65 tocava blues na melhor tradição de uma banda freakbeat. Nos programas de TV, o baterista Jay Baar roubava a cena, com seu visual. Nos bastidores, Jay era o mais junkie da banda, viciado em drogas pesadas e em mau comportamento. No fim de 1967, Jay estava na cadeia e Willem Bieler estava servindo o exército – era o fim do Q65.

Em 1969, a Phonogram soltou Revival, compilação com hits, sobras e três faixas do grupo Circus – a nova empreitada de Jay Baar e Frank Nuyens. Todos começaram a falar do Q65 novamente e o selo Negram fez uma oferta ao grupo, que voltou em 1970, mas sem Jay Baar, evitando assim maiores confusões. Para seu lugar, veio Beer Klaasse (ex-Group 1850).
Com essa formação, soltaram outro clássico absoluto do rock holandês: Afghanistan, com pequenas pérolas em formato de músicas, como o hard “Injection” e a bela versão deles para “Nobody Knows You When You’re Down And Out”.

Depois de mais um álbum, We’re Gonna Make It (1971), o Q65 foi se segurando como podia até 1974, quando acabaram novamente. Peter Vink formou o Finch e os demais integrantes também partiram para outros conjuntos. Voltas aconteceram na década seguinte e, em 1990, veio a notícia que todos esperavam, relatando a morte de Jay Baar. Dez anos depois, em 2000, um ataque cardíaco fulminante levou o vocalista Wim Bieler.

Artigo originalmente publicado na pZ 49

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