O novo e ainda rasante voo da Ave Sangria

Única apresentação no Recife teve doses extras de tensão e emoção

por Bento Araujo     10 set 2014

Ave Sangria - Recife 2014

Marco Polo, Almir de Oliveira, Ivinho e Paulo Rafael. Quatro integrantes originais da Ave Sangria reunidos pela primeira vez num palco, 40 anos depois. E não era qualquer palco, era o Teatro de Santa Isabel, um dos mais belos de todo o Brasil, local inclusive onde a Ave fez seu derradeiro voo em 1974, com o show Perfumes Y Baratchos.

O álbum duplo, trazendo o show Perfumes Y Baratchos na íntegra, foi oficialmente lançado pela primeira vez em disco na data desta nova apresentação, junto do relançamento do elepê Ave Sangria, original de 1974. Havia muita coisa acontecendo naquela noite quente de inverno do Recife.

A euforia foi grande. Todos os bilhetes se esgotaram em menos de 24 horas. O numeroso burburinho do lado de fora do teatro dava indícios que pelo menos mais uma noite extra teria sido também um sucesso de público.

O início da apresentação foi emblemático. As cortinas se abriram e lá estava a Ave, acompanhada de outros quatro músicos (Zé da Flauta, Dujarro, Gilú e Juliano Holanda), todos excepcionais, nitidamente empolgados com aquela ocasião histórica.

A introdução acabou sendo mais longa que o esperado. Enquanto os músicos abriam o volume de seus instrumentos num envolvente tema instrumental de abertura, o som da guitarra de Ivinho havia subitamente desaparecido. Nada saía de seus amplificadores. Um roadie veio ao palco e ficou tentando resolver o problema, mas nada acontecia. Ivinho foi ficando furioso e a decolagem parecia comprometida, uma das asas da Ave Sangria parecia avariada.

Quando tudo parecia perdido os deuses da guitarra colaboraram e a guitarra de Ivinho começou a rugir. Visivelmente irritado ele abriu o tremendo volume de sua guitarra e por muito pouco o luxuoso lustre do teatro não veio abaixo. Pela resposta da extasiada plateia, tudo levava a crer que aquela noite seria de Ivinho.

O show começou então alternando tensão e emoção, apresentando temas do disco homônimo de estúdio, algumas inéditas do show Perfumes Y Baratchos e outras surpresas. “Lá Fora”, “Por que?”, “Janeiro” e “Hei! Man” foram as primeiras da noite. Do falecido baterista Israel Semente o grupo tocou “Boi Ruache (Vento Vem)”, com uma pegada latina no melhor estilo Santana e as guitarras de Ivinho e Paulo Rafael tomando caminhos interessantíssimos. Se Ivinho era a mais pura violência e explosão, Paulinho era o contraponto necessário, com muito bom gosto nas bases, intervenções acústicas cruciais e um timbre impecável de Les Paul.

Quando a banda deu início a “Dois Navegantes” e Almir assumiu o vocal, o teatro cantou mais alto que nunca. Marco Polo relembrava algumas de suas letras, postadas num pedestal, mas toda a plateia estava com ele, cantando cada uma das canções.

A maioria do público consistia numa garotada que nem era nascida quando a banda atuou, na primeira metade dos anos 70, mas pontuando a noite de gala estavam também presentes boa parte daqueles amigos e comparsas que fomentaram os voos iniciais da Ave, como Rafles Oliveira, Maristone e Tiago Amorim.

Ivinho não deixou barato, e como as centenas de estrelas de sua camisa, voltou a brilhar imensamente em seu tema instrumental “Sob o Sol de Satã”. Sorria como um garoto, dançava pelo palco, levantava suas calças em pleno ato de molecagem e tocava em comunhão quase telepática com o jovem baterista Dujarro, que caiu como uma luva nessa nova versão do grupo. Ivinho foi aplaudido de pé e o teatro Santa Isabel gritava seu nome em uníssono. Se no Beco do Barato e no udigrudi pernambucano Ivinho sempre foi um guitar hero, na porção mais Sul do Brasil o seu nome ainda aguarda o merecido reconhecimento. Além de ter sido o primeiro músico brasileiro a pisar no palco do Festival de Jazz de Montreaux, Ivinho pode ser colocado ao lado dos grandes da guitarra brasileira como Lanny, Pepeu e Armandinho.

“Geórgia, A Carniceira”, a mais pesada composição da banda, foi a derradeira da noite. Começou com um arranjo diferente, mais lenta e melódica, até explodir num rock bruto cativante. Nessa altura a garotada já estava toda de pé, na frente do palco, pulando e cantando enquanto Marco Polo metaforicamente e efusivamente abraçava a todos com sua visível gratidão e sua poesia nada marginal.

Passaram-se 40 anos, mas a Ave Sangria ainda voa, ainda sangra. Salve Ivinho, salve os navegantes.

Agradecimentos especiais a Marco da Lata e Cris Rás da Ripohlandya, que além de organizarem essa apresentação e os relançamentos dos discos, convidaram a pZ para cobrir esse show da Ave Sangria no Recife.


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