Black Sabbath: Vol. 4 faixa a faixa

De “Wheels Of Confusion” a “Under The Sun”, o clássico disco de 1972 comentado

por Bento Araujo     18 set 2014

“WHEELS OF CONFUSION”
Originalmente batizada de “Illusion”, a faixa de abertura de Vol 4 apontava um novo e excitante direcionamento para o Black Sabbath. Diferente de tudo que o grupo havia criado até então, trazia andamentos distintos, guitarras fulminantes de Iommi, cordas, caixa Leslie e Ward flertando com uma novidade, os dois bumbos. Na temática, uma autoanálise mental que mostrava a chegada da idade, a inocência perdida, a entrada à vida adulta e, nas entrelinhas, a desilusão com as exigências desse crescimento. O Sabbath estava mais dramático do que nunca.

“TOMORROW’S DREAM”
Com a mesma intensidade que Bill Ward odiava “Cornucopia” ele amava essa segunda faixa de Vol 4 – segundo o baterista, “uma ótima música para tocar ao vivo, o sonho de qualquer baterista”. Foi o primeiro single do disco e dividia algumas semelhanças, estratégicas e temáticas, com “Paranoid”. Logo nos primeiros segundos você já saca que o Sabbath é uma banda mestra em manejar tons graves e fúnebres. O timbre da guitarra de Iommi vem das profundezas. A voz metalizada e única de Ozzy lá em cima e Geezer com suas linhas mágicas de baixo. Sabbath azeitado.

“CHANGES”
Talvez o maior sucesso comercial do conjunto, uma balada que até hoje pode ser ouvida numa sala de espera de um consultório médico, ou em alguma quermesse de alguma cidade interiorana. Isso de forma alguma tira o mérito de “Changes”, uma típica balada melancólica do Sabbath, como eles vinham fazendo em “Planet Caravan” e “Solitude”. A letra fala sobre o fim de um relacionamento amoroso (possivelmente do baterista Bill Ward com sua primeira esposa). Segundo Iommi, foi a primeira coisa que ele tocou num piano em sua vida. Alguns a consideram a melhor performance vocal de Osbourne, outros mantém uma preconceituosa determinação de simplesmente não engolir a canção.

“FX”
“FX”, ou algo parecido com “effects” pronunciando essas duas letras em inglês, nada mais era do que o som de Tony Iommi brincando com sua guitarra, completamente pelado, no estúdio, criando efeitos sonoros, ou “sound effects”. Geezer Butler foi o responsável por trazer a verdade à tona: “Tony tirou todas as suas roupas no estúdio e ficou batendo nas cordas de sua guitarra com aquela cruz que ele usa, pendurada em seu pescoço.” Alguns críticos escreveram que “FX” não passava de “um inconsequente peido barulhento”. Experimento vanguardista ou ponto baixo indulgente do disco? Você decide.

“SUPERNAUT”
Outro riff irresistível de Iommi, dessa vez repleto de wah wah. Uma espécie de foguete levantando voo. Era a canção do Sabbath favorita de John Bonham (e segundo Ward, uma de suas favoritas no geral), que chegou a tocá-la numa jam realizada entre o Black Sabbath e o Led Zeppelin no Morgan Studio, em Londres. Além do riff poderoso de Iommi temos o vocal agudo de Ozzy e o ritmo percussivo latino de Ward. Se o Sabbath tentasse tocar “La Bamba”, sairia mais ou menos isso. Você pode não botar fé, mas o riff de “Supernaut” era um dos favoritos de Frank Zappa.

“SNOWBLIND”
Um clássico da era Ozzy no Sabbath e a canção de Vol 4 que ficou menos datada. É tão atrelada a Osbourne que nenhum outro cantor do Sabbath ousou em recriá-la ao vivo. (Ian Gillan, por exemplo, chegou a fazer “Supernaut” ao vivo em 1983 com o Sabbath, mas não “Snowblind”). Era pra ser a faixa-título, caso o nome do álbum não tivesse sido banido pela Warner, o selo americano do grupo. O que era pra ser uma canção anti-cocaína acabou se tornando o contrário, graças a interpretação bad boy de Ozzy, que ao vivo fazia questão de gritar “cocaine” ao final de cada verso. No disco a palavra surge apenas sussurrada depois da primeira estrofe.

“CORNUCOPIA”
Ou o pesadelo de Bill Ward em forma de música. Seja o que for, “Cornucopia” está entre as coisas mais pesadas que o Black Sabbath já registrou – um hino, com guitarra e baixo afinados alguns tons abaixo do convencional. Tudo para criar exatamente aquele efeito que você presencia, e que até hoje te dá um certo desconforto. A letra desse tema monstruoso e infernal surgiu quando Geezer leu num jornal que naquela semana havia ocorrido “apenas” 25 mortes na Guerra do Vietnã, ou seja, um desrespeito à vida humana em formato de manchete. Geezer então se perguntou: “Qual seria o futuro neste planeta?”. Aqui está o marco zero do doom metal.

“LAGUNA SUNRISE”
Belíssimo interlúdio instrumental com Iommi no violão e um quarteto de cordas. O guitarrista nunca se considerou um bom músico ao executar peças acústicas, mas aqui ele surpreende com sua influência flamenca. O tema foi composto no início daquele ano de 1972, quando o grupo via o sol nascer numa praia, especificamente em Laguna Beach. Panorâmica e até cinematográfica, “Laguna Sunrise” funciona bem também como um respiro em meio as doses cavalares de distorção de “Cornucopia” e “St. Vitus Dance”. Lembra de leve Arthur Lee e seu Love, e é um ótimo cala-boca aos detratores que alegam que o Black Sabbath não tem “musicalidade”.


“ST. VITUS DANCE”

A faixa mais ingênua, urgente e roqueira de Vol 4. O título é uma referência direta a uma doença que atinge o sistema nervoso das crianças, chamada Sydenham’s Chorea. Dentre os sintomas estão incontroláveis e inesperados espasmos. Antigamente, quem sofria dessa doença costumava orar para o tal do Saint Vitus, que é também o padroeiro dos artistas. A letra retrata um amor que deu errado. É a faixa mais bobinha do disco, mas de qualquer forma contém um bom riff.

“UNDER THE SUN”
O épico stoner-rock que encerra Vol 4 é justamente a faixa do álbum que mais se parece com o que o Sabbath vinha fazendo anteriormente. “Under The Sun” poderia facilmente ter saído em Master of Reality, inclusive sua temática é similar a de “After Forever”, por exemplo. Em algumas prensagens a seção de encerramento da faixa (e do disco) recebeu um nome à parte: “Every Day Comes and Goes”. “Under The Sun” providenciou um excelente e pesado encerramento de disco. Acenou ao futuro e se despediu do passado, mesmo que revisitando-o. O velho Black Sabbath estava enterrado. “Under The Sun” foi o último prego no caixão.

O Black Sabbath foi capa da edição número 43 da poeira Zine, onde este texto foi originalmente publicado.

pz43

  1. WALTER CARVALHO

    É o disco do BS que menos gosto…não sei porque, mas juro, já tentei gostar desse disco ouvindo, e ainda o ouço ( por ser um disco clássico do Sabbath) mas, pra mim perde feio pra obras primas como Paranoid, Master of Reality, Sabbath Bloody e o primeirão que também adoro. Enfim, esse estimado Vol.4 ficou diferente no som….não sei, não gosto dêle definitivamente !!

    Responder

Faça um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *