Record Store Day em Nova York

Um sábado inesquecível: Record Store Day

por Bento Araujo     15 jul 2014

RSD

 

Já pensou sair um dia para comemorar “o dia da loja de disco?” Sim, sabe aquela loja que você tanto adora, que fica perto (ou não) da sua casa, ou do seu trabalho; aquela que sempre te salva num dia triste, quando você brigou com a namorada ou com a sua mãe? Então já pensou em dedicar um dia a essa loja e a tantas outras que bravamente seguram as pontas em plena era da pirataria e dos downloads desenfreados? É isso que tem acontecido lá fora, desde a criação de um grande evento chamado Record Store Day. Tive o prazer de passar o Record Store Day numa cidade que é sinônimo de lojas independentes sensacionais de LPs, Nova York, e abaixo vou descrever um pouco o feeling do lance todo…

O RSD foi criado por um sujeito chamado Chris Brown. Ele e mais alguns amigos resolveram fundar um site (www.recordstoreday.com) e celebrar uma vez por ano a cultura que envolve as cerca de 700 lojas independentes de discos dos EUA. O lance cresceu tão rapidamente que lojas inglesas, e também de toda a Europa, aderiram à comemoração, e hoje a data é festejada por colecionadores e lojistas do mundo todo, sempre no terceiro sábado do mês de abril. A primeira edição aconteceu em 2008 e foi oficialmente aberta pelo Metallica, dentro da Rasputin Records, uma loja de discos de São Francisco.

Lojistas, clientes, músicos e selos se unem para celebrar a arte de comprar e vender discos, tudo de forma independente. Shows intimistas acontecem gratuitamente dentro das lojas, promoções relâmpago são promovidas, DJs assumem suas pick-ups, e ainda rolam meet and greet com artistas, tardes de autógrafos, performances acústicas, body painting, paradas, concursos, e muito mais. Os próprios músicos incentivam totalmente o RSD e a cereja do bolo da festa são os lançamentos exclusivos, lançados de forma limitada para serem comercializados somente no RSD e nas lojas independentes participantes do evento. Segundo o site oficial do RSD, só são aceitas na festividade, lojas independentes, reais e “vivas”. Sites, grandes cadeias, livrarias e demais gigantes corporativos não são aceitos e muito menos bem vindos.

Record Store Day em NYCOs itens exclusivos do RSD movimentam uma quantia considerável nas lojas, e são geralmente compactos e EPs em vinil, numerados e exclusivos para o dia festivo. No sábado, as bolachinhas são disputadas a tapa nas lojas, e no domingo, muitos deles já estão no eBay a preços exorbitantes, sendo leiloados por colecionadores do mundo todo. Detalhe: cada cliente só pode comprar uma unidade de cada item, justamente para “evitar o inevitável”, ou seja, esse tipo de superfaturamento no eBay.

Dentre os lançamentos exclusivos do ano de 2010 (veja lista mais abaixo) o do John Lennon foi o mais disputado, sendo que por volta do meio dia do sábado o item já havia se esgotado em todas as lojas de Manhattan. Consegui uma cópia com muito sufoco…

Para conseguir meu Singles Bag do Lennon, cheguei cedo, às 10 horas da manhã numa loja do Village, a Rebel Rebel, que ficava próximo do meu hotel (o legendário Chelsea). Cheguei em frente a vitrine da Rebel Rebel e o proprietário estava abrindo seu estabelecimento. Seu funcionário colocava na calçada as caixas de plástico repletas de LPs de um dólar; enquanto isso um grupo de cerca de seis pessoas se acotovelava na frente da vitrine para tentar pescar algum peixinho exclusivo do RSD.

Com a luz da loja ainda apagada, com tudo escuro lá dentro, o pessoal começou a entrar e o dono avisou que os discos exclusivos do RSD estavam em duas caixas de papelão, bem no meio do corredor. Consegui colocar debaixo do braço um EP do Jimi Hendrix ao vivo e estava buscando principalmente o Singles Bag do Lennon e o compacto de 7” do Them Crooked Vultures.

Os itens iam evaporando na escuridão: Springsteen, Morrissey, REM, Lennon, Neil Young e Lady Gaga eram os mais disputados. Nisso, avisto um Singles Bag num mostruário atrás do balcão, e parto em direção a ele; faltava poucos segundos para a minha comemoração, quando, simplesmente do nada, chega uma moça falando no celular e com um carrinho de bebê…

Ela esbarrou no meu pé, me deu um tranco de leve, um sorrisinho amarelo e pediu para o lojista a última cópia do bag do Beatle… “Amor, acabei de achar aquele do Lennon que você me pediu hoje no café da manhã!”, era o que ela falava com o sortudo do marido pilantra…

Cheguei a desconfiar: “Será que aquela garota estava carregando um boneco no carrinho, só para ter preferência na hora de fisgar os discos nas pequenas e apertadas lojas?” Você sabe do que estou falando, nessas horas o racional nos abandona por completo…

Bleecker Street RecordsPaguei o meu Hendrix e rumei para a próxima loja, caminhando pelo agradável West Village (e pensando que ali andavam Hendrix, Dylan, Al Kooper e muitos outros).

A próxima parada foi na excelente Generation Records. Maior e bem mais organizada do que a Rebel Rebel, ali eles tinham um quadro de avisos branco com todos os lançamentos exclusivos do dia.

Para o meu desespero, muitos já estavam “riscados,” ou seja, já haviam esgotado, e olha que era ainda antes do meio dia. Mesmo assim consegui pegar alguns itens pra minha coleção, como o compacto dos Stones com “Plundered My Soul” (uma inédita das sessões de Exile On Main Street!); e um compacto picture do Coheed and Cambria. A Generation Records é sensacional; maior moçada descolada conversando dentro e fora da loja; no primeiro andar, CDs e DVDs; no andar subterrâneo, vinil, compactos e camisetas transadíssimas. Ali embaixo também iriam rolar shows exclusivos de músicos “habituês” do local. Pra melhorar ainda mais, a loja tinha dois caixas, um na parte inferior e outro na parte superior. O da parte superior era infinitamente melhor, com uma garota maravilhosa toda tatuada e mal encarada, trajando uma camiseta vintage do Nuclear Assault e ouvindo Celtic Frost no volume 11. A beldade atende pelo nome de “Rusty” e no site da loja ela dá umas dicas dentro do menu “Staff Picks”. Quando eu olhei, as dicas dela eram Kreator e Witchcraft, sem contar que o avatar dela no site é a “Moranguinho”.

Várias lojas bacanas estão no Village, algumas delas na Bleecker Street. A própria Bleecker Records é parada obrigatória, com uma vitrine que já faz você arrancar seus cabelos. Mesmo esquema da Generation: CDs e DVDs na parte de cima e LPs e compactos na de baixo. Tudo impecável, organizado e limpo. Mais aquisições do RSD: compactos dos Doors, Neil Young, Elvis e um duplo do Rodriguez, compositor cult de Detroit que recentemente foi redescoberto. Mas faltava ainda o maldito Singles Bag do Lennon…

Rodei por mais algumas lojas: Village Music World, Record Runner, Rock and Soul Records, Bleeckerbobs, Gimme Gimme Records e Other Music. Várias aquisições bacanas: Spirit, Beacon Street Union, Sly And The Family Stone, Idris Muhammad, Savoy Brown, Holy Moses, The Fugs, etc. Tudo num preço excelente.

O evento bizarro do dia aconteceu na loja Kim’s Video & Music. Lá estava eu comprando algumas revistas e alguns CDs quando de repente acontece algo cinematográfico: o dono do estabelecimento sai do balcão e começa a quebrar boa parte da sua própria loja, e na frente dos clientes!

Protegi tudo debaixo do braço (como todo bom “bolha”, vai que ele quebra o que eu estou querendo comprar…), e só fiquei sacando… O cara teve um acesso de fúria e jogou tudo o que estava no balcão no chão. O barulho foi alto e todo mundo parou e ficou olhando para o cara, sem entender o que estava acontecendo. O clima ficou péssimo, aguardei um pouco e fui pagar. O cara estava resmungando, olhando pro chão e xingando sem parar um de seus funcionários. O carinha do caixa, suava em bicas e fazia de tudo para cobrar os meus itens o mais rápido possível. Saí dando risada, pois tinha participado, ao vivo e a cores, de um episódio “alta fidelidade” total. Coisa de louco.

Physical Graffiti - NYC

Saí da loja e com várias sacolas debaixo do braço parti para outro point obrigatório de Nova York, o antigo prédio na St. Marks Place onde foi clicada a foto que ilustra Physical Graffitti do Led Zeppelin. O prédio está mal cuidado, mas continua idêntico ao da foto, e tem até um brechó com o nome do disco na parte de baixo… Ficar alguns minutos olhando o prédio do outro lado da rua é um programa bem interessante. Parece que você está olhando para a capa do elepê.

Minha aventura terminou na J&R, um complexo de várias lojas que toma conta de um quarteirão inteiro na parte Sul da ilha de Manhattan. Por incrível que pareça, a loja (que também vendia discos) fazia parte do RSD, e adivinhe o que eu achei lá? Meu tão procurado Singles Bag do John Lennon…

Você pode dizer que eu sou um bolha, mas como Lennon dizia: “I’m not the only one”…

Principais lançamentos do RSD (18/04/2010)

Jimi Hendrix – Live At Clark University (cinco faixas gravadas ao vivo em 1968, vinil colorido de 12”). 5000 cópias.

The Rolling Stones – Plundered My Soul (compacto de 7” numerado, contend no Lado A um tema inédito das sessões de gravação de Exile On Main Street). 10.000 cópias.

John Lennon – Singles Bjohn lennon singles bag RSDag (o item mais cobiçado do RSD deste ano: três compactos, três postais, um pôster e um adaptador de vitrola exclusivo para tocar 45 rotações, tudo acondicionado num bag de papelão numerado). 5000 unidades foram prensadas.

Elvis Presley – That’s Alright Mama/Blue Moon Of Kentucky (réplica do primeiro compacto do mestre pela Sun Records, inclui download gratuito). 2000 cópias.

Flaming Lips – Dark Side Of The Moon (a banda recriando o clássico do Floyd, num vinil verde de 12”). 5000 cópias.

The Doors – People Are Strange/Crystal Ship (compacto de 7” em comemoração ao lançamento do novo filme da banda). 2500 cópias.

Moby Grape – Rounder/Sitting By The Window (compacto de 7” com duas faixas ao vivo registradas em 1967 e 1969). 2000 cópias.

Roky Erickson – True Love Cast Out All Evil (um advanced em elepê de 12” do novo disco do mestre). 1000 cópias.

E mais: Ramones, Blur, The Rationals, Sonic Youth, REM, Mastodon, Jeff Beck, Muse, Pantera, Neil Young, Fela Kuti, Weezer, Buddy Guy, Wilco, Drive By Truckers etc.

  1. Marco Antonio Rossi

    Lembro do Museu do Disco, eu ia lá para ver as novidades e principalmente ver as capas dos LP’s importados, seria bem legal um Rock Store Day no antigo Museu do Disco.

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