The Cosmic Jokers

“Um protesto contra a realidade”. É assim que a força visionária de um proprietário de um selo atravessou décadas, celebrando música, diversão, arte e LSD.

por Bento Araujo     17 set 2014

O Cosmic Jokers funcionou como uma viagem musical única, baseada em improvisos e ausência de ética. Foram cinco discos, lançados urgentemente dentro do intervalo de apenas um ano.

The Cosmic Jokers

Você ouviu Sgt. Pepper’s e Their Satanic e gostou. Foi pesquisar a psicodelia de São Francisco e passou a se achar um connoisseur do rock ácido. Esqueça! Se você nunca escutou esse coletivo alemão de rock espacial e psicodélico, está completamente por fora…

Desculpe o rancor, quase violento. Mas foi exatamente dessa forma que eu me senti quando escutei pela primeira vez os cinco trabalhos lançados pelo Cosmic Jokers. As viagens sonoras que eu havia escutado anteriormente se tornaram mirins. É como comparar uma viagem de LSD com uma viagem impulsionada por um bombom de licor.

O mais curioso do Cosmic Jokers é o fato de não se tratar de uma banda. Nenhum dos músicos envolvidos, entre eles Klaus Schulze e Manuel Göttsching (Tangerine Dream, Ash Ra Tempel etc.) e o renomado produtor Dieter Dierks, foi “convidado” para o “conjunto”. Apesar de ser geralmente categorizado como uma espécie de supergrupo, o Cosmic Jokers era, na verdade, uma reunião de músicos e personalidades da cena alemã, aqueles que comungavam aspirações vanguardistas, esotéricas e lisérgicas. O objetivo era criar música cósmica e sagrada, como uma tribo, que junto desenvolveria uma nova consciência graças ao LSD.

Em 1973, Rolf-Ulrich Kaiser, o experiente jornalista musical e promotor de shows, fundou um novo e experimental selo chamado Cosmic Couriers (também conhecido como Cosmic Music, Kosmische Musik e Kosmische Kuriere) ao lado de sua esposa e designer de moda, Gerlinde “Gille” Lettmann. Foi por esta estampa que foram lançados alguns dos mais influentes registros do Krautrock, como Cyborg, de Klaus Schulze; Seven Up, parceria do Ash Ra Tempel com o guru do ácido, Timothy Leary; Tarot, de Walter Wegmüller; e demais álbuns de Manuel Göttsching, Wallenstein, Popol Vuh, Mythos etc. Antes, Kaiser havia fundado também a OHR Music Productions, que lançou muitos dos primeiros álbuns experimentais do rock alemão. Foi ele também o autor de diversos livros sobre rock, comportamento jovem e contracultura nos anos 60, além de organizador do Essen International Song Day 1968, o primeiro grande encontro ao ar livre de tribos e grupos musicais jovens da Alemanha.

Rolf-Ulrich Kaiser era um visionário. Atuava como empresário de bandas de rock numa época em que essa profissão era proibida pelo governo alemão. Foi multado e ameaçado diversas vezes. O zine Eurock chegou a publicar, com total veemência, que “a confluência das energias de Kaiser despertaram uma revolução dentro do rock alemão”. Então, como um visionário poderia ganhar menos que os músicos contratados por sua estampa? Contratos internacionais e direitos autorais mostravam-se mais rentáveis aos músicos do que ao cabeça do selo. O intensivo uso de LSD feito pelo então ingênuo casal Kaiser e Gille também mudou a maneira de como encaravam o mundo e os negócios, conflitando diretamente com o ideal hippie dos jovens músicos daquela cena, ávidos por romper barreiras com o passado nazista e com a geração de seus pais.

Com tantos talentos a sua disposição, Rolf-Ulrich Kaiser passou a convidar muitos desses músicos para jams, populares e concorridas acid parties, organizadas no estúdio de gravação do produtor e músico Dieter Dierks, que também participava da festa. Era basicamente uma troca justa: drogas à vontade em troca de algumas sessões de improviso musical. Em algumas ocasiões, Göttsching, Schulze e Dierks se juntaram a Jurgen Dollase e Harold Grosskopf, do Wallenstein. Sem que ninguém percebesse, Kaiser gravava tudo e levava os rolos para sua casa, onde editava o material dentro de um formato álbum.

Numa bela tarde, Manuel Göttsching passeava por uma loja de discos em Berlim. Escutou um som muito interessante e experimental vindo dos falantes. Resolveu perguntar ao vendedor o que estava tocando e este respondeu que era o novo álbum do Cosmic Jokers. Com o disco na mão, Göttsching localizou uma foto promocional sua, bem manjada, inclusive, na contracapa. Tratava-se de uma gravação de uma sessão que ele havia participado no mês anterior. Ao reparar também uma foto de Klaus Schulze na contracapa, Göttsching sacou que problemas estariam por vir, já que Schulze simplesmente não ia muito com a cara e com a lábia de Kaiser.

Kaiser, por sua vez, não só deu sua cartada definitiva como tirou um sarro com os envolvidos, batizando-os de “palhaços cósmicos”. Agora, sem o consentimento de nenhum envolvido, ele havia fundado um novo “grupo”.

O Cosmic Jokers não passava então de um supergrupo fantoche do Krautrock, talvez o primeiro e único do gênero. Nesse sentido de traquinagem, podem ser comparados aos Monkees e Sex Pistols, com exceção de que nessas duas bandas citadas todos pelo menos sabiam o que estava acontecendo.

Ética contratual à parte, Kaiser prestou um serviço de suma importância aos apreciadores de Krautrock, já que The Cosmic Jokers, o disco, é um marco daquela era. Sua discreta, reservada e cuidadosa edição enalteceu as performances dos envolvidos, que transformaram-se em dois extensos temas: “Galactic Joke” e “Cosmic Joy”. Performances essas que jamais veriam a luz do dia caso não fosse os anseios picaretas de Kaiser. A maior virtude do álbum certamente é não ter sofrido dos mesmos vícios das grandes obras do rock progressivo do período. Nada é conceitual, ou estrutural, mas, sim, orbital.

Julian Cope escreveu sobre o disco em seu ótimo livro Krautrocksampler: “O disco de estreia do Cosmic Jokers é fudidamente fantástico. Soa como um Ash Ra Tempel ampliado. Todos os contemporâneos da banda foram arrasados. É um disco todo composto por formas livres musicais como ‘Maggot Brain’ do Funkadelic – tudo vem junto pelo mesmo caminho, sem interrupção”.

A colorida capa de The Cosmic Jokers foi outro acerto de Kaiser, que embalou seu distinto produto da melhor maneira possível, com alto teor espacial/minimalista, porém com um senso pop art unindo o espiritual com o comercial. Tudo cortesia do artista gráfico Peter Geitner. Dava quase para expor o disco na prateleira de um supermercado, ao lado das embalagens de sabão em pó ou dos cereais matinais. Como disse Cope, “era uma bela orgia de criação, magia e sabedoria sônica, realizada num plano superior e racionalizada depois de forma audível e palatável”.

Com o sucesso do primeiro disco no underground europeu e japonês, Kaiser e sua esposa não perderam tempo e poucos meses depois já estavam lançando um segundo trabalho nos mesmos moldes: Galactic Supermarket. As vibrações que emanavam do estúdio de Dieter Dierks eram as mais intensas e subliminares possíveis. O álbum estava mais funk e com efeitos de teclados, mais universal e moderno, embalado numa arte gráfica de mandalas e pirâmides pop art. De novidade alguns overdubs vocais feitos posteriormente às jams de estúdio, gravados por Kaiser, que registrou a sensual voz de sua esposa e parceira de negócios.
Debaixo do nome The Cosmic Jokers & Sternenmädchen, saiu pouco depois o disco de colagens sonoras Planeten Sit-In, lançado junto de uma revista, como um disco de demonstração do sistema quadrifônico, uma novidade naquela altura.

Sob o nome da dupla Gille Lettman & Rolf-Ulrich Kaiser saiu também o disco Sci Fi Party, na verdade um sampler do selo Kosmische Musik, contendo temas dos outros álbuns e também canções inéditas como “The Electronic Scene”, de Brian Barritt, amigo pessoal de Timothy Leary.

Atuando literalmente como um fora da lei, Kaiser lançava esses trabalhos um atrás do outro, o mais rápido possível, tentando fugir de ameaças e processos dos músicos envolvidos. Estes iam ficando cada vez mais furiosos. Até mesmo Göttsching, que havia desculpado Kaiser, perdeu a paciência de vez quando se deparou com outro álbum, desta vez creditado a Sternenmädchen: Gilles Zeitschiff, onde todos aqueles renomados músicos não passavam de banda de apoio para a bela companheira de Kaiser.

Críticas nos jornais apareceram, assim como processos de todos os lados. Dos EUA, os súditos de Leary criticavam a postura de Kaiser, alegando que ele havia corrompido as vidas da juventude local. O burburinho chegou aos ouvidos da corte alemã, que, temerária da associação de Kaiser com Leary, anulou todos os contratos que Kaiser mantinha com seus artistas. Era o fim do selo Kosmische Musik.

De nocivo, somente o fato dos cinco álbuns relacionados ao nome Cosmic Jokers, todos lançados em 1974, terem ofuscado o excelente catálogo da Kosmische Musik. Dezessete álbuns foram lançados pelo selo e todos merecem atenção.

Hoje esse catálogo funciona muito como o Santo Graal do Krautrock para colecionadores do mundo todo. Quanto aos nomes contratados pelo selo na época, alguns se deram muito bem, como Klaus Schulze, que assinou com a Brain Records e o Tangerine Dream e o Ashra Ra Tempel, que assinaram com a Virgin Records inglesa.

Com o passar dos anos, surgiram alguns boatos de que Kaiser tinha tomado tanto LSD que havia se tornado um mendigo e morreu esquecido nas ruas de Berlim, tendo sido enterrado como indigente. Outros boatos diziam que ele e sua esposa estavam internados num sanatório, sem previsão de melhora. Ao que tudo indica, o casal vive em paz no interior da Alemanha, numa modesta casa, sem o menor interesse em lidar com o passado e também com o mundo moderno, vivendo basicamente naquele suposto plano superior que Julian Cope citou em seu livro.

Falando nisso, Cope encerra seu Krautrocksampler dizendo que Kaiser “deve ser não somente perdoado, mas também elevado a herói, graças a seu mal orientado, porém visionário zelo, pelo qual ele temporariamente elevou a música muito acima da esfera terrestre, lá longe, junto das estrelas”. Literalmente, épico.

Discografia Básica Comentada:

The Cosmic Jokers: The Cosmic Jokers
A arquetípica e definitiva viagem Krautrock, registrada de forma livre, ainda sob as vibrações da parceria do Ash Ra Tempel com Timothy Leary. Dois longos temas recortados e editados com sabedoria ímpar por Rolf-Ulrich Kaiser, executados por uma espécie de dream team do rock alemão. O Bitches Brew do Krautrock.

Galactic Supermarket: Galactic Supermarket
Novamente duas longas excursões sonoras. Diferente do disco anterior, tudo está mais funk, até dub. A voz de Gille Lettman surge ocasionalmente, inserida posteriormente e Klaus Schulze brilha com o volume e a força de seus sintetizadores. Outra capa sensacional e emblemática do período.


The Cosmic Jokers & Sternenmädchen: Planeten Sit-In

John Cale, Terry Rilley, Irmin Schmidt, Ivor Cutler. É difícil situar este álbum, já chamado de uma compilação de “padrões de teste sonoro para o seu cérebro”. Inventivo e inebriante, pode ser considerado o mais experimental dos trabalhos do “projeto” Cosmic Jokers.

Gille Lettman & Rolf-Ulrich Kaiser: Sci Fi Party
Compilação das sessões levadas por Schulze, Göttsching, Grofkopf, Dollase e Dierks. Tudo parece orientado para um selvagem acid test, inclusive a intersecção da guitarra espacial de Göttsching com os efeitos eletrônicos assustadores de Schulze. Tudo temperado com a produção visionária de Dieter Dierks.

Sternenmädchen: Gilles Zeitschiff
Temas dos álbuns anteriores remixados por Dieter Dierks, acrescidos das narrações indefectíveis de Gille Lettman. Julian Cope comparou as vozes de Timothy Leary e Brian Barritt, aqui inseridas, tão importantes para o rock psicodélico como “Dark Star”, do Grateful Dead. Destaque também para a incrível capa e para o poster que acompanhava a versão original, com todo o cast estelar.

Texto originalmente publicado na pZ 53

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