Camel: Discografia Comentada

Todos os principais discos da banda prog de Andrew Latimer e Peter Bardens comentados

por Bento Araujo     15 set 2014

CamelCamel (fevereiro 1973, MCA)  ****
Segundo o guitarrista Andrew Latimer, “as gravações foram um pesadelo”, mas o disco de estreia do Camel é, na verdade, o álbum mais subestimado de sua carreira. Os teclados de Peter Bardens brilham mais que as guitarras de Latimer, numa abordagem similar a que o Argent também fazia na época. “Slow Yourself Down” alia vigor e melodia e apresenta uma banda com sede de vencer. “Mystic Queen” é uma pequena pérola que lembra o Traffic e “Never Let Go” é Camel puro, aquilo que pode se chamar de primeiro hit entre os fãs.


Mirage (março 1974, Gama/Deram) *****

Contém alguns dos temas mais famosos e imortais da banda. Geralmente é por aqui que muitos fãs começaram a escutar o Camel, daí o afeto que Mirage desperta até hoje. Mas não é só isso: “Freefall” mostra o grupo mais maduro e ousado. “Supertwister” é uma homenagem ao Supersister holandês, grupo que admiravam e as elaboradas suítes “Nimrodel/The Procession/The White Rider” e “Lady Fantasy” certamente mostraram que o Camel tinha cacife pra brigar ombro a ombro com os medalhões do prog.

Music Inspired By The Snow Goose (abril 1975, Gama/Decca) *****
Nesse trabalho conceitual/instrumental, baseado no conto de Paul Gallico, o Camel atingiu seu ápice como unidade musical. A execução beira a perfeição, as melodias são belíssimas, provando que o Camel era um grupo único no cenário da época. Não tem como destacar uma ou outra faixa. Para assimilar o rico conteúdo, é preciso degustar tudo como uma peça erudita. Latimer e Bardens mereciam condecorações da monarquia britânica pelo o que conquistaram aqui. De chorar.

Moonmadness (março 1976, Gamma/Decca) *****
A despedida da formação clássica original e a terceira obra-prima seguida do Camel. Os principais temas foram baseados nas personalidades dos integrantes, talvez por isso esse seja talvez o disco mais pessoal da banda. A melancolia de “Song Within A Song” parecia demonstrar que algo nocivo estaria por vir. “Chord Change” abre novos caminhos dentro da seara fusion que o conjunto (principalmente Ward) desejava explorar. Latimer está impecável, seja na guitarra, como em “Lunar Sea”, ou na flauta, como em “Air Born”.

Rain Dances (setembro 1977, Gama/Decca) ****
Richard Sinclair e Mel Collins são músicos de primeira linha e, consequentemente, somaram muito ao grupo, mas, sem Ferguson, o Camel parecia um pouco perdido. O molde havia quebrado. Isso só faz Rain Dances ser um pouco menos genial que os anteriores. “Metrognome”, “Skylines” e “Unevensong” faziam o Camel soar mais excêntrico, mais Canterbury mesmo. “Highways Of The Sun” foi o hit pop, bacaninha, porém culpada por mostrar e alertar sinais de fraqueza que apareceriam com maior evidência nos próximos trabalhos.

A Live Record (abril 1978, Gama/Decca) ****
Disco duplo ao vivo, gravado em diversas turnês, que compila material contido nos cinco primeiros LPs do grupo, além da inédita “Ligging at Louis’”, datada de 1974. A qualidade das gravações é ótima e o segundo disco traz na íntegra a execução de Snow Goose com orquestra, no Royal Albert Hall. A versão relançada em CD pela Universal, em 2002, traz sete faixas bônus e cerca de 40 minutos extras.



Breathless (setembro 1978, Gamma/Decca) ***

Mantendo a mesma formação e o formato de Rain Dances, o Camel seguiu adiante rumo ao final da década de 70. Breathless traz decepções e acertos em quase igual medida. “Echoes” é incrível, prova da competência dos músicos envolvidos; “You Make Me Smile” deve ter sido responsável por causar ataques cardíacos em milhares de proggers avessos à onda disco; “The Sleeper” é rock com tempero jazz e “Rainbow’s End” é uma bela balada, talvez açucarada demais numa época em que o grupo precisava mesmo era um pouco de acidez.

I Can See Your House From Here (outubro 1979, Gamma/Decca)  ***
“Ice”, o tema instrumental de encerramento, é o responsável por elevar a cotação deste álbum. A longa e magnífica peça é a prova do talento de um guitarrista e bandleader como Andy Latimer. Bardens estava fora do jogo e Latimer fechou o último disco do Camel da década de 1970 com muita propriedade e feeling. “Who Are We” e “Hymn To Her” podem até lembrar os bons tempos da banda, mas o que sobra é algo meloso na linha do Supertramp e do Alan Parsons Project. “Remote Romance” é constrangimento puro.


Nude (janeiro 1981, Gamma/Decca) ****

Álbum conceitual que serviu como um sopro de vida na carreira do Camel, além de abrir possibilidades para a banda na década de 80. Os timbres, puro new wave, são extremamente datados e afugentam os proggers mais ortodoxos. Mas, vencido esse obstáculo, Nude brilha como há tempos o Camel não brilhava. “Docks” é um tema à frente de seu tempo; “Beached” é dramática na mesma medida que “Landscapes” é contemplativa, armas usadas pelo Camel dos bons tempos. Nude não ter estourado nos anos 80 foi uma daquelas peças armadas pelo destino. Infinitamente superior e imaginativo a tudo o que o Asia fez em sua vida.

The Single Factor (maio de 1982, Gamma/Decca) **
Semelhanças com o Alan Parsons Project à parte, principalmente na abertura com “No Easy Answer”, The Single Factor trazia um Camel mais fragilizado que nunca, criando canções curtas e atraentes ao rádio, tudo a pedido da gravadora. O título e a capa deixavam claro, Latimer estava sozinho na jornada e parecia mais perdido que nunca, mesmo com Peter Bardens dando uma canja em “Sasquatch” e com temas interessantes e bem construídos como “Heroes” e as instrumentais “Selva” e “End Peace”.


Stationary Traveller (agosto de 1984, Decca) **

Latimer sempre curtiu canções instrumentais. Neste álbum aparecem quatro delas, e são geralmente nesses temas que o bom gosto do guitarrista sobressai. Como todo álbum do Camel, tem seus momentos, mas alguns fãs não toleram Stationary Traveller pelos seus timbres oitentistas e suas melodias melosas. O último trabalho de estúdio dos anos 80 da banda é conceitual e foi baseado nas letras da esposa de Latimer, Susan Hoover, e seu interesse em histórias relacionadas ao muro de Berlim.


Pressure Points: Live in Concert (1985) ***

O segundo registro ao vivo do grupo prioriza o material lançado no final dos 70s e início dos 80s, além de várias canções do então novo álbum de estúdio da banda, Stationary Traveller. O show aconteceu no Hammersmith Odeon, em 1984, e trouxe Bardens como convidado em duas peças musicais de Snow Goose. O vídeo de mesmo nome é também recomendável e mostra que Latimer tem um estilo único de tocar sua guitarra.

Dust And Dreams (1991, Camel Productions) **1/2
Depois de anos de silêncio total, Latimer voltou com seu Camel e lançou mais um trabalho conceitual. Revitalizado e com liberdade de expressão, pois agora lançava seu material por conta própria, Latimer brilhou como nos bons tempos, com sua guitarra impecável, como na climática e até meio bluesy “Mother Road”. Diferente do Camel dos anos 70, mas recomendável para quem curtiu a fase mais pop da banda nos anos 80.

Harbour of Tears (janeiro 1996, Camel Prod.) ***1/2
Outro álbum conceitual, onde Latimer e sua esposa contam a trajetória dos ancestrais irlandeses do guitarrista, que deixaram a Irlanda do pós-guerra num navio em busca de um futuro melhor nos EUA. O clima é de tristeza e melancolia, além de influência tradicional celta, o que combinou perfeitamente com os timbres estudados e sentimentais de Latimer. Trabalho mais relaxado e climático que os anteriores, porém com alto teor emocional.


Rajaz (outubro 1999, Camel Productions) ****

Nem o mais ardoroso fã do Camel esperava que o grupo tivesse um disco como Rajaz ainda na manga. A despedida do milênio não poderia ser melhor para Latimer, que voltou a flertar com elementos fusion neste trabalho. “Three Wishes” recoloca o Camel em seu posto e as faixas longas são emblemáticas e grandiosas (“The Final Encore”, “Rajaz” e “Lawrence”). Não é exagero dizer que Rajaz é o melhor álbum do Camel desde Nude, lançado 18 anos antes.

A Nod and a Wink (julho de 2002, Camel Productions) ***
O último álbum de estúdio lançado pelo Camel é leve, contemplativo, uma apropriada homenagem de Latimer a seu comparsa Peter Bardens, morto no mesmo ano de lançamento do disco. O tema mais forte do album é justamente sua faixa de encerramento, “For Today”, baseada nos atentados terroristas do 11 de setembro. Traz os vocais graves de Latimer e sua guitarra certeira. Teclados e flauta aparecem com maior força em A Nod and a Wink do que em Rajaz. Se for esse o derradeiro trabalho do grupo, seremos eternamente privilegiados.

O Camel foi capa da edição 46 da poeira Zine, onde toda a trajetória do grupo foi passada a limpo

  1. Fernando Pessoa

    Sou muito fã do Camel e acho que a banda não teve o reconhecimento da mídia mundial como outras grandes tiveram, no mais parabenizar ao Bento Araújo pelas informações objetivas dadas à cada álbum, para quem não conhece e vai ouvir a partir de agora, é só seguir os comentários é tirar suas conclusões. Espero ainda poder ter a oportunidade de ouvir novo trabalho de Andrew Latimer e cia. Vida longa ao Camel!

    Responder
  2. William Peçanha

    Mais uma bola dentro, Bento!
    Para quem, como eu, teve o imenso privilégio de ter a banda literalmente no meu quintal em 2001 (eles se apresentaram aqui em Cataguases), é gratificante ver os principais discos comentados aqui no seu inigualável site.
    Apenas para completar, deem também uma ouvida em “Never Let Go”, duplo ao vivo gravado na turnê do “Dust and Dreams”.
    Um forte abraço e sucesso!

    Responder

Faça um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *