Ronnie Montrose

Nossa homenagem ao grande guitarrista norte-americano

por Bento Araujo     04 jul 2014

Ronnie Montrose

“Não lembro de conseguir comprar a minha primeira guitarra”. Sim, os tempos foram difíceis para Ronald Douglas Montrose, que nasceu em São Francisco, California, no dia 29 de novembro de 1947.

Ronnie começou a tocar guitarra aos 17 anos de idade, tomando emprestadas guitarras de amigos, simplesmente por não ter grana suficiente para adquirir uma. Assistir ao vivo os Yardbirds, com Jeff Beck e Jimmy Page no velho Fillmore, foi uma influência poderosa para ele, assim como presenciar a força do Cream e do Jimi Hendrix Experience no Winterland de São Francisco.

Em 1969 ele montou sua primeira banda semi-profissional, Sawbuck, que já contava com o baixista Bill Church, futuro parceiro na banda Montrose. Ronnie estava gravando o primeiro álbum da banda, e de sua carreira, quando o produtor David Rubinson arrumou uma audição do guitarrista com o cantor irlandês Van Morrison. Ronnie chamava essa de “a grande oportunidade de sua vida”, pois além de ficar com a vaga, garantiu lugar no disco Tupelo Honey, de Morrison, o que lhe abriu inúmeras portas, como ser escalado para ser o guitarrista na banda de Boz Scaggs e depois na banda de Edgar Winter.

Com Winter, Ronnie Montrose gravou o disco They Only Come Out At Night, lançado em 1972, contend dois hits: Frankenstein e Free Ride. O estilo agressivo de Ronnie já saltava aos ouvidos do público – o tamanho anormal de suas mãos também foi algo crucial, pois possibilitou que desde essa época ele se tornasse um guitarrista acima da média, com uma técnica peculiar. Boatos davam conta que por volta de 1972, os ingleses do Mott The Hoople queriam que Montrose assumisse a vaga deixada por Mick Ralphs, que estava partindo para montar o Bad Company.

Sem poder extravazar todo o seu talento como guitarrista dentro do Edgar Winter Group, Ronnie resolve abandonar tudo e seguir o seu próprio caminho, montando um grupo com o seu sobrenome: Montrose. A banda seria lançada pela Warner em 1973, sob a supervisão de uma dupla da pesada, o produtor Ted Templeman e o engenheiro de som Donn Landee, ambos velhos amigos de Ronnie da época das sessões para o álbum de Van Morrison.

A ideia era a de lançar o disco de rock mais pesado e conciso já gravado na América até então. Ninguém na Warner tinha passado por uma experiência como aquela, então foi tudo meio no chute mesmo, mas deu certo, pelo menos artisticamente, já que comercialmente o álbum foi um fracasso. No entanto, Montrose, serviu de cartilha para muitas bandas e artistas da América do Norte, como Riot, Moxy, Aerosmith, Cheap Trick, Ted Nugent e é claro, o Van Halen, que cinco anos depois lançou sua arrasadora estreia, também pela Warner e com a dupla Templeman/Landee cuidando e apadrinhando tudo.

Além da guitarra robusta e desafiadora de Ronnie, o primeiro disco da banda Montrose trazia performances fulminantes do baixista Bill Church, do batera Denny Carmassi e principalmente de um jovem e talentoso vocalista chamado Sammy Hagar, então a mais recente descoberta de Ronnie. Usando uma Gibson Les Paul e um pedal Big Muff, Ronnie entrou para a história do Rock pesado ao cunhar clássicos do gênero como Rock Candy, Rock The Nation, Make It Last, Bad Motor Scooter e Space Station #5 – essa última inclusive regravada pelo Iron Maiden. Aliás é interessante ressaltar a influência do Montrose em bandas inglesas da NWOBHM como o próprio Maiden, o Saxon (já reparou de onde vem o riff de Redline? Ouça então I Don’t Want It do Montrose), o Raven e outras. Na cena Thrash da Bay Area o disco rodou bastante também nas mãos do pessoal do Metallica, Megadeth, Exodus e Testament.

A parceria entre Ronnie Montrose e Sammy Hagar durou mais um disco, Paper Money, lançado em 1974 e contendo I’ve Got The Fire, outra faixa do Montrose regravada pelo Maiden, essa em duas ocasiões: uma com Paul Di’Anno e outra com Bruce Dickinson nos vocais. Hagar foi demitido e saiu em carreira-solo, mas Ronnie continuou com sua banda, lançando em 1975 o grande álbum Warner Brothers Presents… Montrose!, e no ano seguinte, Jump On It, outros dois fracassos de vendas.

Em 1978, dois discos de Jeff Beck estavam fazendo a cabeça de Ronnie Montrose – Blow By Blow e Wired. Querendo fazer algo naquele sentido o guitarrista partiu para seu primeiro álbum solo instrumental, Open Fire, disco que inclusive foi lançado por aqui na época e andou depois jogado pelos sebos. Open Fire foi produzido pelo amigo Edgar Winter, que evidentemente também toca no disco. A versão de Ronnie para o clássico tema Town Without Pity marcou época e a veia mais fusion do disco chamou a atenção do batera-monstro Tony Williams. Em julho daquele ano de 1978 lá estava então Ronnie ao lado de Tony, Brian Auger, Mario Cipollina e o convidado Billy Cobham, na tour Tony Williams All Stars, que apresentava pelo menos três temas de Open Fire.

Em 1979 Ronnie parecia um pouco cansado do jazz e voltou a atacar de Hard Rock com seu novo projeto, Gamma, levado adiante ao lado do excelente vocalista Davey Pattison. O segundo disco do projeto, Gamma 2 – lançado em 1980, é recomendadíssimo e traz uma versão para Something In The Air, clássico da banda/projeto Thunderclap Newman. Como session man, a lista de participações de Ronnie Montrose impressiona: Herbie Hancock, Beaver & Krause, Van Morrison, Paul Kantner, Gary Wright, Nicolette Larson, The Beau Brummels, Dan Hartman, Edgar Winter, etc.

Nos anos 80 e 90, Ronnie continuou gravando e excursionando bastante, seja em carreira-solo, ou trazendo de volta versões requentadas, tanto do Montrose, como do Gamma. A formação original do Montrose chegou a se reunir em 2004 e 2005. Gravaram uma faixa no álbum Marching To Mars de Sammy Hagar (Leaving The Warmth Of The Womb) e passaram a participar como convidados especiais dos shows do então ex-vocalista do Van Halen.
Uma nova volta do Montrose original parece que estava agendada. Infelizmente um câncer na próstata foi mais rápido e acabou tirando a alegria de viver de Ronnie, que optou por não lutar contra a doença. Aos 64 anos de idade ele cometeu suicídio.

Texto de Bento Araujo

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