Entrevista com Peter Hammill

O líder do Van der Graaf Generator falou com a poeira Zine

por Bento Araujo     23 abr 2013

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poeira Zine – Seu trabalho evoca um indescritível senso de loucura e desespero. Através dos anos você tem sido “estereotipado” como um artista que teve seu potencial nunca totalmente explorado. Teria sido você mal entendido por todo esse tempo?

Peter Hammill – Não estou muito certo quanto a essas definições. Uma parte do meu trabalho foi e é insano e desesperador, mas espero que as forças “da vida” tenham se sobressaído perante as forças da “escuridão” nesses 40 anos que eu venho fazendo isso… Concordo que em algumas ocasiões essa força “da vida” se esforçou para aparecer e ficar clara. Penso que no meu pequeno caminho eu tenha executado todo esse meu potencial por fazer a quantidade de discos que eu fiz, sem ter que apelar para modismos ou demandas comerciais. Obviamente eu não alcancei meu pleno potencial como um Deus do rock ou como uma mega-estrela de fama internacional. Suponho que eu encare isso numa boa. Num nível pessoal, se sou compreendido ou não, isso é irrelevante. Não sou eu que estou disponível para sofrer algum cálculo de valor, mas sim o meu trabalho.

pZ – No passado você trabalhou ao lado de importantes nomes do progressivo italiano, conte mais sobre essa experiência…

PH – Nos anos 70 dei uma mão para o Le Orme, mais especificamente traduzindo as letras do álbum Felona e Sorona. Pelo que me lembro, peguei várias idéias originais que eles tinham e elaborei-as em peças contínuas, depois eles traduziram as letras em inglês de volta para o italiano. Para o Premiata Forneria Marconi eu escrevi a letra da canção “Sea Of Memory”, que inclusive cantei. Meu principal trabalho de tradução foi para Herbert Gronemeyer, do alemão para o inglês; e para Miguel Bose, do espanhol e italiano para o inglês. Para esse último, escrevi algumas letras em inglês. Também fiz esse tipo de tradução para o Zucchero, mas por várias razões esse trabalho nunca viu a luz do dia…

pZ – Falando em Itália, o quão bom e ruim foi a relação entre o país e o VdGG?

PH – No geral essa relação foi incrivelmente boa, mas algumas experiências também foram incrivelmente ruins. Eu amo a Itália; adoro falar a língua deles, e desde a década de 70 estive lá por muitas vezes, para tocar ou mesmo trabalhar em outros projetos. Mesmo assim, devo admitir que sempre fui muito cauteloso quanto a complexidade da sociedade e da cultura do país. Fazendo um balanço das minhas “experiências italianas” dessa vida, o resultado é esmagadoramente positivo.

pZ –  Você é citado por muitos como um dos mais influentes músicos do século 20. Nomeie três artistas que não existiriam se não fosse por sua causa.

PH – (Pensativo) Posso citar uma série de pessoas que publicamente declararam sofrer uma espécie de influência de minha parte, ou mesmo de assumirem um “débito” com o meu trabalho, mas nunca sei como lidar com isso de uma maneira correta. Certamente soaria presunçoso e repleto de arrogância de minha parte. Fico muito feliz de saber que alguns artistas (tanto no campo da música como da literatura) se sintam impulsionados para criar sua própria arte como uma conseqüência do meu trabalho. É assim que a tocha vai sendo passada de mão em mão…

pZ – Você costuma ouvir seu próprio trabalho? Quantas canções de Peter Hammill eu encontraria no seu iPod?

PH – No período em que finalizo um novo trabalho, sei muito intimamente que não irei desejar ouvir aquilo por um bom tempo. Muitas vezes, no entanto, escuto coisas do passado, principalmente se tiver que reaprender alguma canção para um show. Nos últimos anos tenho trabalhado bastante na remasterização desse material mais antigo; nesse caso a audição está relacionada à realização desse trabalho. De qualquer forma, eu não tenho iPod! (risos).

pZ – Mais recentemente, como a partida de David Jackson afetou o VdGG?

PH – Na verdade o trio remanescente ficou completamente revigorado com a partida dele. Acredito que somos um grupo muito mais vibrante e contemporâneo agora do que éramos em 2005, e tem sido uma grande experiência para todos nós; é um privilégio tocar com esses caras e ter esse caminho aberto pra gente seguir mesmo nesse período mais tardio da banda. Claro que não imaginávamos que isso aconteceria quando decidimos “quebrar” essa nossa reunião da formação clássica.

pZ – Como você decide que chegou a hora de gravar um novo álbum?

PH – Fazer discos é uma parte natural e regular da minha vida. As estações climáticas aparecem regularmente com o passar do ano e o mesmo acontece com as composições e gravações. Pelo menos até agora tem sido assim.

pZ – Você tem consciência que o álbum Pawn Hearts foi a principal trilha sonora de muitas vidas?

PH – Pra ser honesto eu sempre tento estar atento muito mais com o presente e com o que eu tenho que fazer agora do que ficar me preocupando ou me aplaudindo pelo o que as pessoas pensam de mim. Se você glorifica a si próprio pelo seu passado, uma responsabilidade muito grande agarra o seu pescoço e você não consegue mais escapar dela.

pZ – A palavra “aposentadoria” já passou pela sua cabeça?

PH – Não tenho a intenção de me aposentar, a não ser que eu descubra que não tenho mais nada a dizer, isso provavelmente seria algo bem desagradável inclusive… Claro que nos 60, não estou mentalmente e fisicamente tão rápido como antes, mas isso não quer dizer que a minha vida continue menos interessante.

pZ – O que eu acharia na sua coleção de discos?

PH – Uma vastidão de coisas… A maioria erudita: Mozart, Bach… Coisas românticas. Stravinsky, Messaien e Ligeti são meus favoritos “modernos” (nem tanto!)…(risos).

pZ – Sua voz faz as pessoas ficarem nervosas?

PH – Aparentemente eu deixo as pessoas nervosas e ocasionalmente pareço assustador, mas isso sou apenas “eu” na vida normal.

pZ – As pessoas esperam sinceridade de um cantor?

PH – Acho que as pessoas tem o direito de exigir sinceridade dos cantores, mesmo se estes forem sinceros apenas com o fato de desejarem ser o mais “estrela” possível. O melhor sempre será tentar cantar a verdade.

pZ – Qual foi o lugar mais bizarro que você ouviu uma canção sua?

PH – Numa jukebox de um restaurante mexicano em Los Angeles…Essa é a primeira que vem à mente…(risos).

pZ – O que você curte mais, excursionar como artista solo ou com o VdGG?

PH – São experiências completamente diferentes. Você só pode comer uma refeição por vez, então é impossível falar sobre cozinha italiana enquanto você degusta a comida japonesa. Você está sempre fazendo uma tour por vez, tocando um show num único lugar por vez, para uma única audiência. Dou o melhor de mim em cada um desses momentos e sempre me vejo como parte integral de cada um deles.

pZ – Qual gravação sua que continua desconhecida da maioria de seus apreciadores?

PH – Existem sim algumas delas… Por exemplo, eu cantei para o Moondog alguns anos atrás…

pZ –  Como você encara o fato de ainda cantar canções que você escreveu há 40 anos atrás?

PH – Se toco ou canto uma canção é porque sinto alguma conexão com ela. Eu pulo dentro dela e de um jeito ou de outro tento habitá-la, então enquanto faço isso, não tenho nenhuma preocupação quanto à relativa idade dessas canções.

pZ – Você já tocou na Argentina em algumas ocasiões e isso leva muitos fãs brasileiros às lágrimas. Podemos sonhar com alguma apresentação sua ou do VdGG por aqui?

PH – Never say never!

Essa entrevista foi originalmente publicada na pZ 24, cuja capa traz o Van der Graaf Generator.

 

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