Uriah Heep: Discografia comentada da fase David Byron

A fase clássica da banda britânica, disco a disco (1970-1976)

por Bento Araujo     28 jan 2015

Uriah Heep

 

Very ‘Eavy Very ‘Umble (1970) ***
Foi esse o responsável! Sim, foi numa resenha dessa estreia do Uriah Heep que aquela infeliz jornalista norte-americana declarou: “Se essa banda der certo eu cometo suicídio!”. Curiosamente a banda de Mick Box e Ken Hensley é até hoje a campeã de vendas do selo Vertigo, ao lado do Black Sabbath. Em Very ‘Eavy Very ‘Umble, o Heep pode ainda não parecer a pleno fôlego, já que certamente o auge do grupo como um todo acabou florescendo anos mais tarde, contudo essa estreia mostra um competente grupo de jovens muito bem ensaiados e confiantes. “Gypsy” é o primeiro hino deles e abre mais que apropriadamente a discografia da banda, sendo inclusive presença obrigatória em todos os shows. A bolacha também tem um pouco de tudo: balada folk em “Come Away Melinda”, jazz-rock e progressivo em “Wake Up (Set Your Sights)”, blues em “Lucy Blues” e “Real Turned On” e puro hard rústico e dramático em “Dreammare”, “Walking In Your Shadow” e “I’ll Keep On Trying”.

Salisbury (1971) ****
Ouvindo o segundo álbum do grupo, percebemos nitidamente o avanço deles em termos de sofisticação nas composições e nos arranjos. A mil anos luz da estreia estava a faixa título, “Salisbury”, que tomava conta de boa parte do lado B do elepê com seus 16 minutos de orquestrações, metais, sopros e um dos melhores solos de Mick Box, o guitarrista mais “underrated” dos 70s. Salisbury continha também um dos maiores hits do grupo, a balada “Lady In Black”, um single de estrondoso sucesso na Alemanha, uma simples canção pop que nessa conjuntura acabou sendo encarada apenas como mais um experimento da banda, ainda sedenta por uma direção. Outros destaques são “The Park”, que continua sempre bela e“Bird Of Prey”, faixa que adiantou, em muitos anos, o que bandas como Judas Priest, Queensryche, Helloween e outras viriam a fazer mais pra frente… Salisbury marcou também por contar pela primeira vez com a participação efetiva de Ken Hensley nas composições de temas, letras e arranjos.

Look At Yourself (1971) ****
Nesse terceiro álbum o UH finalmente acha o seu caminho. Todas as características que fizeram a banda ser o que ela é estão aqui: as tecladeiras encorpadas e pesadas de Hensley, o wah wah ensurdecedor de Box, os vocais exagerados e as dramáticas e longas baladas, aqui no caso, “July Morning”, um hino dos anos 70, assim como “Stairway To Heaven”, “Freebird”, “Child In Time”, “Band On The Run”, “Hotel California” e tantas outras. “Tears In My Eyes” tem o indefectível slide de Hensley comandando tudo, “What Should Be Done” tem algo de Zeppelin, não só no nome (“What Is and What Should Never Be”?), “I Wanna Be Free” é puro Uriah Heep, assim com a faixa título. Destaque também para o belo truque da capa espelhada, uma ideia de Box que deu o que falar nas prateleiras das lojas de discos da época, chamando atenção e até impulsionando as vendas da bolacha.

Demons and Wizards (1972) *****
Não é tão somente o melhor álbum da banda, mas também um dos melhores álbuns dos anos 70. Graças a temas fantásticos como “The Wizard”, “Circle Of Hands”, “Traveller in Time”, “Rainbow Demon” e “Easy Livin’” (o maior hit do Uriah Heep), a banda alcançou status de “elite do rock” em algumas partes do planeta, como na Oceania e no Japão. O álbum gerou dois singles, um para “Easy Livin’” (que trazia uma versão de “Gypsy” no lado B) que só não emplacou na Inglaterra e outro para “The Wizard” (com a inédita “Why” no lado B), que obteve boas vendas, empurrando o disco para estacionar por 11 semanas nas paradas locais. Demons and Wizards vendeu barbaridade em 1972; colocou a banda no mapa do rock pesado mundial, atentou o grupo para o gigantesco mercado norte-americano e deu identidade única ao Uriah Heep. Se você não tem nada dos caras, comece por aqui. Difícil dali pra frente seria largar dessa imagem mística e sobrenatural forjada neste trabalho.

The Magician’s Birthday (1972) *****
Apenas seis meses depois de seu último disco, o Uriah Heep lançava mais um clássico da década de 70, que mostrava nitidamente uma evolução gritante de todos os membros do grupo. A capa trazia mais uma vez a assinatura do mestre Roger Dean, esbanjando estilo e beleza. Clássico absoluto! “Echoes In The Dark” leva até hoje qualquer mero apreciador do grupo às lágrimas. “Blind Eye” e “Tales” emergem da influência folk, sempre um diferencial do Heep, assim como a sutileza de “Rain”, com a voz prateada de Byron, definitivamente um marco na gigante discografia de Mick Box e sua trupe. “Sunrise” virou faixa de abertura oficial dos shows da banda, mas talvez o maior destaque do álbum seja sua última, progressiva e homônima faixa, uma épica batalha entre o bem e o mal. Dica: Quem aprecia essa fase pode também se aventurar pelo primeiro disco solo de Ken Hensley, Proud Words On A Dusty Shelf, gravado com a mesma “cozinha” do Heep e no mesmo clima de Demons e Magician’s.

Live January 1973 (1973) ****
Mais um campeão de vendas dentro da extensa discografia do grupo. O vinil duplo original era um luxo só, com capa dupla e um chamativo livro de fotos de oito páginas. Além do estonteante material fotográfico a banda ainda teve o culhão de reproduzir as mais absurdas (e também as mais lisonjeadoras) críticas recebidas durante os três primeiros anos de atividade. Depois da clássica introdução do roadie Todd Fisher dizendo “Welcome please, England’s own Uriah Heep” o que temos é uma espécie de greatest hits do grupo até então, com versões inspiradas para temas como “Sunrise”, “Traveller in Time”, “Easy Livin’”, “July Morning”, “Gypsy”, “Circle of Hands”, “Love Machine”, “Tears In My Eyes” e o famoso “Rock n’ Roll Medley”, compilando pérolas dos anos 50, como “Roll Over Beethoven”, “Blue Suede Shoes”, “Hound Dog”, “At The Hop” e “Whole Lotta Shakin’ Goin’ On”. Festa pura…

Sweet Freedom (1973) ****
Cansados daquele papo de bruxos e magos, o Uriah Heep iniciou uma nova fase com seu sexto álbum de estúdio, com temas mais objetivos, tratando do cotidiano e da realidade dos jovens da época. O resultado é um pouco abaixo dos dois álbuns anteriores, porém bem acima da média geral e com vigor de sobra. A faixa título e “Stealin’” são os maiores sucessos, trazendo uma excelente qualidade de som e uma empolgada performance de todo o grupo, cada vez mais entrosado, nesse que é o terceiro álbum a contar com a mesma formação “clássica” do conjunto. Outros pontos altos são: o clima mais relaxado e descompromissado de “Circus”, com violões e percussão; a épica e longa “Pilgrim” e a sentimental e confessional “If I Had A Time”, escrita por Hensley dois anos antes, mas tirada do armário quando ele estava doente e de cama, pensando no futuro de sua carreira e da banda. A capa também inovou, trazendo pela primeira vez apenas uma foto inofensiva dos rapazes.

Wonderworld (1974) ****
Depois de anos seguidos de extenuantes gravações, excursões pelo mundo, e campanhas publicitárias sem fim, em 1974, o Uriah Heep era literalmente uma banda sofrendo de estafa e estagnação afetiva. Mesmo assim conseguiram fazer mais um belo álbum, usando a melancolia como arma para combater a chatisse da rotina de estúdios, hotéis e aeroportos. A faixa título já dá o clima do elepê, assim como a belíssima balada “The Easy Road”, repleta de feeling e numa interpretação histórica de Byron. “So Tired” e “Something For Nothing” são emergenciais e “Suicidal Man” é talvez a coisa mais pesada que o Heep já havia feito em estúdio até então, assim como “I Won’t Mind”, faixas que poderiam ter saído de um Sabotage do Black Sabbath. O pesadelo final aparece com “Dreams”, que mostra o verdadeiro tormento emocional que foram as gravações e que trazia passagens e colagens nebulosas de sons do álbum anterior, Sweet Freedom. Arrepiante!

Return To Fantasy (1975) ****
Como o próprio nome já dizia, o Uriah Heep estava de volta a sua melhor forma, usando e abusando de temas fantasiosos sobre magos, lendas, ocultismo e misticismo. O rockão básico também marcava presença em “Shady Lady” e “Prima Donna”, com metaleira e tudo mais. “Showdown” conta com os slides flamejantes de Ken Hensley; “You Turn to Remember” tem pegada blues/soul totalmente fifties; uma delícia bem atípica no repertório mais carrancudo do grupo. Como sempre, o disco traz uma balada de arrasar: “Why Did You Go”, que leva facilmente qualquer fã da “era Byron” às lágrimas. Já a faixa título transborda os moogs tenebrosos e característicos de Hensley, com um andamento semelhante à clássica “Easy Livin’”, tudo embalado nas tradicionais vocalizações, ou seja, um tema 100% Uriah Heep para o deleite geral da legião de seguidores do conjunto. O álbum foi o mais bem sucedido do grupo até então.

High And Mighty (1976) ***1/2
Polêmica sempre foi parte da trajetória do Uriah Heep. Com esse álbum a história não foi diferente. Não só a banda e a imprensa, mas também a maioria dos fãs não aprovou a despedida de David Byron. Taxado de pop, arrastado e nada inspirado, High And Mighty não convenceu na época de seu lançamento. Passados 34 anos o álbum ressurge imponente e classudo, trazendo a melhor balada do grupo (“Weep in Silence”), uma genial e vigorosa atuação vocal de John Wetton (“One Way Or Another”), um hino para levantar o astral da banda que andava meio caído (“Can’t Keep A Good Band Down”), pop trabalhado na medida (“Misty Eyes”), melodic rock e AOR antes disso virar rótulo (“Midnight”) e todas as composições assinadas pelo mago Ken Hensley. O grupo vivia um tormento emocional e resolveu simplesmente retirar Byron do posto de vocalista após o lançamento do disco, que só não ganha cinco estrelas aqui porque o lado B é muito mais fraco do que o lado A… Seria esse o Come Taste The Band do Heep?

Artigo originalmente publicado na pZ 29

  1. MARCÃO

    High And Mighty 3 estrêlas e meia ? Como assim o melhor trabalho da banda merece menos reconhecimento que os anteriores ? Neste album de 1977 a banda se redime da barulheira estérica dos primeiros discos para enfim nos brindar com um excelente e maduro hard-rock, sendo o guitarrista Mick Box responsável direto por essa boa guinada.

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  2. Valci Peruffo

    High and Might é de 1976, o último disco de David Byron e de John Wetton no U.Heep. Firefly também é de 1976, quase no final , já com John Lawton nos vocais. Pra mim o Salisbury é um dos melhores, senão o melhor, valeu………………

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