Dez discos para entender o Rock In Opposition

Como fenômeno cultural e subgênero dentro do rock progressivo, o RIO continua atraindo seguidores e entusiastas mundo afora

por Bento Araujo     21 maio 2015

RockInOpposition_flyerNos anos 70, o rock britânico e norte-americano impunha uma espécie de ditadura musical e cultural. No resto do mundo, muitas bandas viviam à marginalidade, cantando em sua língua e mantendo-se fiel às suas tradições. Essa resistência gerou uma oposição não só estética, mas também política. Sacando essa efervescência, os britânicos do Henry Cow deixaram a Inglaterra e partiram rumo à Europa Continental, onde conheceram inúmeras bandas vanguardistas. Em 1978, já no fim de sua trajetória, o Henry Cow convocou quatro bandas, de quatro países distintos, para um festival em Londres chamado Rock In Opposition (RIO). Após o evento e outros shows espalhados pela Europa, uma espécie de cooperativa foi criada. Novas bandas aderiram ao movimento, porém, mais adiante, o RIO enfraqueceu como organização. Já como fenômeno cultural e subgênero dentro do rock progressivo, continua atraindo seguidores e entusiastas mundo afora. Abaixo, dez discos essenciais para se aventurar pelo Rock In Opposition.

Western Culture (1979)
Henry Cow (Inglaterra)

Quarto e último disco de estúdio da banda seminal do RIO. O título e o conceito têm total conexão com os princípios do movimento RIO, colocado em prática com uma trilha sonora criada pelo quarteto Tim Hodgkinson, Lindsay Cooper, Fred Frith e Chris Cutler. Totalmente instrumental, WC pode ser considerado a música erudita não convencional do século passado.

1313 (1977)
Univers Zero (Bélgica)

Disco de estreia de um dos nomes mais importantes do progressivo belga, fundadores do “chamber rock”. Flertando saborosamente com dissonâncias e nuances acústicas, 1313 é um trabalho único, sofisticado, dark e envolvente. A abertura, com a longa e climática “Ronde”, garantiu a presença da banda no festival RIO, realizado um ano após o lançamento deste álbum.

Les 3 fous Perdegagnent Au pays des… (1978)
Etron Fou Leloublan (França)

Com precisão cirúrgica e uma estrutura musical complexa, o quarteto francês gravou esse seu segundo álbum no ano chave do RIO, com um orçamento bem precário. A fraca produção acaba sendo compensada com insanidades musicais, como a apresentada nos dez minutos da Beefheartiana “Le désastreux voyage de piteux Python”.

Måltid (1973)
Samla Mammas Manna (Suécia)

Segundo registro do representante sueco e escandinavo do RIO, um grupo ao mesmo tempo ousado, divertido e sedento por expansivas jams, que pintam aqui como “Dundrets Fröjder” e “Minareten”. Para quem gosta da fase mais fusion de Zappa, é um banquete. Com uma sonoridade aguçada, a música praticada pelo SMM serve de contraponto ao som introspectivo de outros expoentes do RIO.

Macchina Maccheronica (1980)
Stormy Six (Itália)

Evidentemente, a Itália teria seu expoente dentro do RIO e o SS era a banda mais experiente do movimento. Com uma postura política esquerdista e letras de protesto, o grupo passou pelo beat, folk e prog, até chegar neste seu sétimo álbum, o mais ousado de sua carreira. A versão original contém um pôster e um livro de 16 páginas com letras e desenhos.

Winter Songs (1979)
Art Bears (Inglaterra)

Praticamente um supergrupo do RIO, com a dupla Chris Cutler e Fred Frith (do Henry Cow) e Dagmar Krause (Slapp Happy). Experimental, ambiente e por vezes eletrônica, a música do Art Bears compreendeu três álbuns essenciais para quem quiser se aventurar pelo RIO. Winter Songs é o segundo deles, composto e gravado na urgência de apenas duas semanas.

Symphonie Pour Le Jour Où Brûleront Les Cités (1980)
Art Zoyd (França)

Bartok, Stravinsky, Zappa, Magma, King Crimson e música de câmara eram as principais influências deste importante combo francês. Quanto mais a carreira do grupo avançava, menos rock e mais erudito eles iam ficando. Neste quarto álbum, a música do Art Zoyd aparece mais densa e dramática do que nunca.

Un Peu De L’Âme Des Bandits (1980)
Aksak Maboul (Bélgica)

Na virada dos anos 70/80, a Bélgica era um celeiro de música vanguardista, como comprova este segundo e derradeiro trabalho do Aksak Maboul, grupo liderado pelo tecladista Marc Hollander. Belas cordas, a voz inimitável de Catherine Jauniaux e a presença inestimável da dupla RIO por excelência: Fred Firth e Chris Cutler.

Acnalbasac Noom (1980)
Slapp Happy (Alemanha/Inglaterra)

Banda formada em Hamburgo, popular no underground por contar com uma vocalista única: Dagmar Krause. Foram parceiros do Faust e do Henry Cow e flertaram com o pop como talvez nenhum outro combo do RIO. Acnalbasac Noom era na verdade o relançamento do segundo disco deles, Casablanca Moon (1974), que chegou às lojas não muito depois do calor dos festivais RIO originais.

Egon Bondy’s Happy Hearts Club Banned (1978)
The Plastic People of the Universe (República Tcheca)

O RIO já era praticado do lado de lá da Cortina de Ferro, antes mesmo do movimento existir. No leste europeu, bandas como o TPPOTU sofriam os piores tipos de repressão política, e com muita insistência, gravaram discos praticamente na surdina. Este primeiro álbum deles é um manifesto sócio-cultural, um marco do rock antagônico.

Artigo originalmente publicado na pZ 55

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