Rainbow: Long Live Rock n’ Roll

Tudo sobre o álbum que marcou a despedida de Ronnie James Dio da banda de Ritchie Blackmore

por Bento Araujo     23 out 2014

Rainbow em 1978Depois da tour de promoção de Rising; Dio, Blackmore e Powell contaram com dois novos reforços: o tecladista canadense David Stone e o baixista australiano Bob Daisley. Era hora de lançar um duplo ao vivo registrado na última tour para ganhar tempo e assim gravar com calma um último (e assombrado) álbum de estúdio com Dio nos vocais. Depois de três anos de muitas aventuras e excelentes discos, estava terminada para sempre a parceria Blackmore/Dio. A dupla se despedia então com um hino de guerra: Long Live Rock n’ Roll.

On Stage era o fiel registro da força do Rainbow ao vivo e um trabalho típico dos excessos dos anos 70, onde discos ao vivo com “capas borradas” eram a maior carta na manga que uma banda poderia ter. Digo isso, pois muitos discos ao vivo de sucesso desse período traziam fotos “manchadas ou borradas” na capa, com uma preocupação nula com a resolução da foto. Pode reparar: Frampton, Kiss, AC/DC, Deep Purple, Cheap Trick, Thin Lizzy, Rush, Ted Nugent, Lynyrd Skynyrd e o Rainbow não me deixam mentir.

On Stage, e seus excessos, possuem méritos e pecados. Méritos ficam por conta da abertura poderosa e emblemática de “Kill The King”, um hino do heavy metal até então inédito em álbuns de estúdio da banda; a versão fenomenal (para muitos definitiva) de “Mistreated” do Purple; e mais longas (para alguns, “maçantes”) releituras de “Catch the Rainbow”, “Sixteenth Century Greensleeves”, “Still I’m Sad” e outras. Os pecados ficam por conta da omissão de “Stargazer” e outras maravilhas de Rising, que eram executadas nos shows da época; e para nós brasucas, pelo fato do elepê ter sido lançado por aqui em formato simples, completamente retalhado. E bota pecado nisso…

As gravações vinham da tour de 1976 pela Alemanha e Japão, ainda com Jimmy Bain e Tony Carey no grupo. Martin Birch cuidou da mixagem e produção e foi acompanhado em todo o processo por um mais que atento Ronnie James Dio, extremamente interessado em aprender macetes de estúdio com o renomado produtor. A mixagem durou exatos 16 dias e aconteceu no estúdio de Ian Gillan, o Kingsway Records. Talvez por isso, Blackmore só apareceu um único dia no estúdio para conferir o andamento das coisas. Na cabeça do guitarrista, o mais importante era o próximo disco de estúdio.

Blackmore tratou de agendar a gravação do próximo álbum novamente no Musicland Studios, em Munique, na Alemanha. Para sua surpresa, o estúdio estava com a agenda lotada para os próximos quatro meses. Devido ao temível imposto britânico, a banda teria que gravar fora do Reino Unido, então coube a Cozy Powell a missão de viajar pela Europa em busca de algum estúdio que se assemelhasse ao Musicland alemão.

O escolhido foi o estúdio francês Le Chateau d’Herouville, localizado num castelo do século 16, próximo a Paris, e que era muito utilizado por David Bowie e Elton John na época. As gravações começaram em maio de 1977 e novamente Martin Birch cuidava dos botões. Blackmore gravaria também as linhas de baixo do disco e para os teclados convocou novamente Tony Carey.

Dessa vez o Rainbow partia pela primeira vez para o estúdio sem ter nada (com exceção de “Kill The King”) em mente. O processo de composição aconteceria de forma mais livre, despojada e no próprio estúdio, como Ritchie estava mais acostumado na época do Deep Purple. A tática foi um fiasco e depois de seis semanas em estúdio nada aproveitável tinha sido criado. Blackmore optou em passar o tempo jogando bola ao invés de gravar ou compor. Cozy curtia correr pela redondeza com sua Ferrari. Como dizem lá fora, a banda sofria de uma aguda “writer’s block”.

Rainbow

Não demorou muito pro pessoal perceber que o castelo era mal assombrado e, segundo alguns vizinhos, a propriedade era amaldiçoada pelo espírito de Chopin, o antigo proprietário do castelo. Luzes se acendiam e se apagavam sozinhas, microfones paravam de funcionar sem a menor explicação e fitas partiam enquanto o grupo gravava. Blackmore, Dio e Powell, praticantes do espiritismo, organizaram várias sessões espíritas dentro do castelo e até praticaram a famosa “brincadeira do copo”, buscando uma comunicação com as entidades do passado que ainda rondavam o local.

Tudo o que eles gravavam e compunham de dia ficava aceitável, porém tudo dava errado nas sessões noturnas. Dio e Blackmore gostavam de começar a gravar suas partes após a meia noite, indo até o amanhecer. Depois de uma dessas sessões, Dio atendeu o jornalista Jim Farber, enviado pela revista americana Circus, numa das enormes salas do castelo: “Eu gostaria de ter vivido na época do Rei Arthur; só gostaria também que eles tivessem banheiros equipados…(risos) Tenho lido sobre as lendas desse período e é uma grande fuga pra mim estudar sobre essa época da história. Quando componho, me isolo completamente do que está acontecendo, e tento me sintonizar com a era medieval. Tem uma faixa no novo álbum chamada ‘Lady of the Lake’ que é baseada nessas lendas antigas. Ritchie é muito mais ligado na música medieval do que eu, mas creio que foi essa nossa mútua admiração por esse período que nos aproximou e nos fez trabalhar juntos.”

O novo trabalho foi batizado de Long Live Rock n’ Roll e foi lançado em abril de 1978, quase um ano depois das problemáticas sessões na França. Na capa, além do trio Blackmore, Dio e Powell, estavam os dois novos integrantes que já vinham excursionando bastante com o grupo: Bob Daisley e David Stone. Daisley vinha para o baixo depois da banda ter flertado novamente com Craig Gruber e com Mark Clarke (Colosseum, Tempest, Uriah Heep, etc.), além de uma extenuante audição de mais de 40 candidatos ao posto.

Das novas composições, a emblemática faixa-título foi o maior sucesso do Rainbow até então, colocando a banda como uma das maiores forças do rock pesado naquela segunda metade dos anos 70. No Japão e na Alemanha o grupo já era considerada top desde 1976, no entanto, na Inglaterra, na América, e em outras partes da Europa, havia muito ainda a ser conquistado, principalmente em termos de mercado. Talvez por isso, Long Live Rock n’ Roll seja um álbum mais direto, objetivo, simples e até mesmo mais comercial que os anteriores. A faixa-título, “L.A. Connection”, “The Shed”, “Lady Of The Lake” e “Sensitive To Light” comprovam essa faceta mais comercial e direta do novo Rainbow. A únicas faixas que ainda flertavam com o estilo mais complexo, pesado e épico de Rising eram “Gates Of Babylon”, uma espécie de sucessora de “Stargazer”, tanto em intensidade quanto em força; e a versão de estúdio de “Kill The King”, aqui devidamente registrada com maestria. Na Guitar Player americana, Blackmore dá uma declaração dizendo que seu solo em “Gates Of Babylon” é o melhor de toda a sua carreira. A banda ainda encerrou o álbum com uma fabulosa balada medieval, “Rainbow Eyes”, uma das muitas belíssimas e impressionantes atuações vocais de Ronnie James Dio.

Apesar de ser uma das favoritas dos fãs, Blackmore não estava muito contente com a interpretação de RJD: “Ronnie me apresentou várias demos de baladas similares a ‘Rainbow Eyes’ nessa época, mas recusei todas, com exceção dessa própria, que fecha o disco. Comecei a perceber que Ronnie não poderia cantar uma balada pesada de forma apropriada. Ele sempre começava fazendo uma voz de garotinha e isso me aborrecia pra caramba.”

Dio também foi questionado anos depois sobre seu derradeiro álbum com o Rainbow: “Do meu ponto de vista aquele foi um LP infeliz. Eu vi Ritchie partir em direção de mudanças que iriam me afetar de forma nociva. Ouvindo o disco anos depois, tudo soa muito fraco pra mim. Existem boas canções ali, mas nada que se destaque.”

Long Live RnRPara promover o novo álbum foi agendada a mais longa excursão já realizada pela banda até a data. Na América do Norte foram realizados mais de 40 shows naquele ano de 1978, muitos deles com o Rainbow abrindo para grupos locais bem populares, como o REO Speedwagon, por exemplo. Isso certamente incomodava o ego pra lá de inflado de Blackmore. Pra ele era como começar de novo. Conquistar o mercado norte-americano começava a se tornar uma questão de honra para o guitarrista. Para a banda, era mais do que isso, era uma questão de vida ou morte.

Como parte dessa estratégia, Blackmore apostou em divulgar cada vez mais a sua banda, concentrando toda a tour de 1978 nos EUA, deixando de lado mercados fonográficos fortes para o Rainbow, como o Japão, a Oceania e a Alemanha. Ao invés de tocarem em Tóquio, para um Budokan lotado, por exemplo, Blackmore optou por abrir shows do Cheap Trick e do Cars. RJD estava desanimado com os novos rumos tomados pelo tirano guitarrista, que agora se sentia confortável em dublar três faixas de Long Live Rock n’ Roll para o Don Kirshner’s Rock Concert, um popular programa de TV na América naquela altura. Dentre os planos de Blackmore estava também conquistar o rádio, mas para isso era preciso mudanças drásticas no formato de composição do Rainbow, até então uma banda um tanto “obscura” nos EUA. Dio chegou a comentar algo sobre esse período nos anos 80, para a revista Kerrang: “Nós éramos uma banda underground na América, onde as tendências eram outras. As tendências não eram favoráveis a uma banda como a nossa. Na Europa não existia esse tipo de necessidade; lá eles te aceitam pelo o que você é, e não pelo o que você parece ser. Na Europa o público nos aceitava por sermos uma banda com influências de música erudita, e por Ritchie ter uma grande reputação por lá.”

Na Europa, Blackmore, Dio e Powell apareciam com ímpeto nas listas de “melhores músicos do rock” das publicações especializadas, o que levava Blackmore à busca de uma nunca alcançada perfeição dentro de seu grupo. Com a tour pelos EUA encerrada, o guitarrista não demorou para colocar Bob Daisley e David Stone na rua. Pra piorar a situação, o punk rock, a new wave, a disco music, e o “corporate rock” de bandas como Eagles, Fleetwood Mac e Peter Frampton reinavam em absoluto no mercado fonográfico. Na virada de 1978 para 1979, parecia que os dias do rock pesado de bandas como o Rainbow estavam com os dias contados. Blackmore até esse ponto tinha geralmente financiado o Rainbow às custas de seu próprio bolso, graças a sua pequena fortuna arrecadada nos tempos de Deep Purple, a direito autoral, e royalties, também daquele período. O custo de vida era alto e manter um grupo daquele na estrada era caríssimo. Estava na hora da grana começar a entrar, e até uma volta da formação clássica do Deep Purple estava sendo muito cogitada.

A reunião do Deep Purple acabou não acontecendo (até 1984), mas sim uma reunião entre Blackmore e Roger Glover, que foi escalado para ajudar nas composições e na produção do “novo Rainbow”. O guitarrista confessou depois que (o sempre paciente) Glover foi escalado para ser uma espécie de barreira entre ele próprio e Cozy Powell. Com Glover intermediando as tensões dessas polaridades, a música do Rainbow só teria a ganhar, segundo a linha de raciocínio de Blackmore. O que o guitarrista não pensou foi como manter Dio nessa nova proposta, já que sua temática de “cavaleiros e dragões” não se encaixaria de nenhuma forma dali por diante. Dio ainda temia que com Glover à bordo, sua parceria de composição com Blackmore estaria com os dias contados: “Roger se tornou uma espécie de porta voz de Ritchie; era ele que me dizia o que Ritchie desejava fazer. Foi Roger que me disse que eu deveria parar de escrever coisas fantásticas e abstratas, a pedido de Ritchie. A nova direção implicava em escrever sobre coisas do dia-a-dia, lances reais, e também escrever sobre amor. Eu não escrevia daquela maneira, não sentia aquilo, mas mesmo assim tentei me manter na banda, mesmo não contribuindo muito sob essas circunstâncias,” confessou Dio na biografia Rainbow Rising, de Roy Davies. O clima pesava. Depois de tantos anos, Dio e Cozy sentiam que não estavam recebendo o devido reconhecimento artístico por parte da crítica e do público, e financeiro por parte do próprio Blackmore. Para a dupla, todos ainda pensavam que o Rainbow era apenas um projeto solo do guitarrista, e isso incomodava, tanto no ego como nos bolsos.

Cozy Powell estava no meio do furacão de tensões e assistiu como espectador a ruptura da relação Blackmore/Dio: “Ambos tinham fortes personalidades e era evidente que aquilo uma hora ou outra iria explodir. Era inevitável. Ronnie queria ter sua própria banda, queria ser o centro das atenções, por essa razão estava tão infeliz no Rainbow… Guitarristas e vocalistas são assim, geralmente eles querem toda atenção.”

Dio e Blackmore chegaram então à duas conclusões: a de que o vocalista iria partir em busca de sua carreira-solo, e a de que o Rainbow continuaria sua busca pelo sucesso nos EUA com outro vocalista.

Numa entrevista de 1982 a Guitar Player, Blackmore relembrou de sua parceria com Dio e do final da relação entre ambos: “Ronnie era muito bom em escrever letras e em aparecer com harmonias vocais. Eu apenas fornecia uma vaga melodia e ele trazia exatamente o que eu desejava. Depois que Ronnie se foi, as coisas se tornaram mais amargas. Eu era muito próximo dele até sua esposa, Wendy, aparecer na jogada e deixar tudo tenso. Ela era muito legal, mas a gente simplesmente não combinava.”

Quem encerra o assunto é o próprio RJD: “Ritchie decidiu que o futuro da banda estava em conquistar a América e foi aí que começou todo o meu descontentamento. O Rainbow estava prestes a se tornar uma banda pop, e esse não era o intuito original de nós dois quando nos reunimos em 1975 para iniciar o projeto. Ele estava desesperado para fazer sucesso nos EUA, e queria comercializar a música do grupo. Foi uma decepção completa, pois ao meu ver, o Rainbow deveria ficar cada vez mais agressivo, pesado e verdadeiro.”

Artigo originalmente publicado na pZ especial sobre Ronnie James Dio

  1. k

    aí ele cagou em achar um cara com uma amplitude do porte da do Dio e fez pop um cantor de folk… mas cantor de folk com a força do Bonnet é desperdício mesmo.

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  2. William Peçanha

    …foi meu segundo disco do Rainbow, o primeiro foi o “picotado” On Stage versão nacional.
    brilhante disco de um banda inigualável.
    tudo nesse disco está no lugar certo.
    pena que “tudo o que é bom dura pouco”.
    um abraço, Bento.

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