Gentle Giant – A Discografia Comentada

O gigante disco a disco

por Bento Araujo     21 out 2014

Gentle GiantGentle Giant (1970) ****
Que outro grupo prog tem uma estreia tão arrasadora como essa do Giant? Talvez somente o King Crimson e o ELP possuam similar proeza. “Alucard” e “Funny Ways” são hinos do estilo, obrigatórias nos shows da banda. “Nothing At All” tem memorável melodia e descamba para o Hard. Rock, jazz, música barroca, sinfônica e folk, tudo condensado e embalado pela produção esmerada do mestre Tony Visconti e pela capa mais emblemática do grupo. Detalhe: a estréia do GG foi gravada no Trident Studios, localizado no coração do Soho, bairro boêmio de Londres. O guitarrista Gary Green comentou que durante as sessões, o estúdio vivia repleto de ‘damas da noite e do dia’.

Acquiring the Taste (1971) *****
Considerado por Ray Shulman e por alguns fãs de carteirinha como o melhor álbum da banda e o segundo (e último) sob a tutela no mago Tony Visconti. O grupo gravou cada faixa do disco com um pensamento em mente: que tudo soasse único, excitante, ousado e fascinante. São esses adjetivos que podemos despejar em genialidades gentis do porte de “Black Cat”, “Pantagruel’s Nativity”, as soturnas “Wreck” e “The House, The Street” e a quase gregoriana “Edge Of Twighlight”. O gosto adquirido pela essência experimental.

Three Friends (1972) ****
A complexidade dark do álbum anterior cede espaço para um álbum conceitual mais sinfônico e ‘pra cima’. A banda aqui recria sua aptidão de ‘fazer miséria’ com todos os tipos de instrumentos; ousa ao usar cordas como base rítmica em “Peel The Paint”, funde minúsculas percussões com licks delicados de guitarra e vocais perfeitos em “School Days” e mostra sonoridade épica em “Prologue”. Three Friends é Giant clássico, em plena forma, e com muito gás para queimar pela frente. A ópera-rock do Giant trazia contos sobre três amigos de infância que se separaram após os estudos: um se tornou um homem de negócios, o outro um artista e o último um trabalhador braçal.

Octopus (1972) *****
Obra-prima pesada do grupo e o último álbum a contar com os serviços de Phil Shulman. Aqui o som clássico do GG aparece mais forte e inesquecível do que nunca. As ousadas texturas e as camadas vocais, mais a fusão do erudito com o jazz e com o groove, atingem talvez seu ponto máximo. A instrumental “The Boys In The Band” é tudo o que o Kansas sempre sonhou em fazer; “Knots”, “A Cry For Everyone”, “The Advent Of Panurge” e “River” fazem qualquer progger sofrer um orgasmo de três dias de duração. Indicado como o ponta pé inicial para quem ousa em se aventurar na terra do Gigante.

In A Glass House (1973) *****
A edição em vinil adquiriu status de Santo Graal na época das bolachas e trazia uma arte gráfica sensacional. Nunca foi lançado na América e isso de certa forma arrematou um certo charme ao título. Com a perda de Phil, os irmãos Ray e Derek Shulman seguraram a onda com uma obra que beira a perfeição, como a delicada e medieval “A Reunion”, o clima psicodélico barroco de “An Inmates Lullaby”, o vidro estilhaçado mais famoso do rock e os andamentos absurdos de “The Runaway”, a originalidade da faixa título e o baixo insano de Ray Shulman em “Way Of Life”. Sim, com In A Glass House o GG provou que era um estilo de vida, tanto para os membros da banda como para todos os seus seguidores.

The Power And The Glory (1974) *****
O índice de aproveitamento do GG em estúdio é coisa no mínimo absurda. Mais um álbum cinco estrelas, certamente um daqueles que qualquer Gianthead deseja morrer abraçado. “Aspirations” e seus vocais gregorianos te deixam sem ar, “Cogs In Cogs” milagrosamente sempre pintava nos shows, “No God’s A Man” parece ter sido concebida por algum ser superior de outra galáxia, “Playing The Game” é suinguera braba, assim como “Proclamation”, uma prova de que o progressivo também pode ser dançante e balançado, aliás esse groove sempre foi um dos diferenciais do Gigante. “So Sincere” tem muito de jazz e “The Face” capricha na construção melódica tradicional do GG. Mais uma obra conceitual e definitiva da banda, que aqui aborda a corrupção política como tema central.

Freehand (1975) *****
O álbum dos ‘problemas resolvidos’ da banda. Depois de 18 penosos meses com um selo que quase arruinou a carreira do grupo (WWA), agora eles estavam na Chrysalis, que tinha como um dos proprietários um verdadeiro fã do GG. O alto astral volta a reinar como nos bons tempos e isso está estampado na cara de temas como a quase new age renascentista “His Last Voyage”, “On Reflection”, “Time To Kill” e “Mobile”. Com Freehand o GG deixava os problemas para trás e se sentia mais a vontade do que nunca. Um álbum mais comercial, mas ainda no melhor do sentido.

Interview (1976) ****
A busca pela perfeição já havia se tornado uma perigosa e deliciosa obsessão e quem ganhava com isso eram os fãs. Em mais um álbum conceitual o GG agora criticava a imprensa musical e todos seus insuportáveis maneirismos. “Empty City” soa mais maravilhosa a cada nova audição, “I Lost My Head” tem um clima único e confessional, “Design” foi uma das maiores ousadias vocais do grupo e segundo Ray a faixa mais difícil de ser gravada da história da banda. Destaque também para “Give It Back”, onde você pode presenciar o Gigante dançando e se deliciando com um reggae. Impagável! Interview foi o último grande álbum de estúdio do grupo e sua despedida da sonoridade assumidamente prog.

Playing The Fool – The Official Live (1977) *****
Com entusiasmo e confiança renovada pelo fato de contar com o apoio do novo selo (Chrysalis), o Gigante teve a moral de registrar seu auge em cima de um palco. Considerado por muitos o melhor disco ao vivo da história do prog, Playing The Fool captura com honesta fidelidade a essência das apresentações do grupo. Como dizia o release da gravadora do Gigante, esse álbum ao vivo nada mais era do que “cinco one-man bands tocando juntos”, já que o quinteto se alternava em cerca de 30 instrumentos diferentes a cada apresentação.

The Missing Piece (1977) ***
Qual seria o pedaço perdido do complexo quebra cabeça do GG? Seria a simplicidade e o rock básico, tão em alta quando este álbum foi lançado, bem no auge do movimento punk na Grã-Bretanha. O Gigante estava sim meio perdido no meio de toda aquela bagunça; “Betcha Thought We Couldn’t Do It”, a faixa mais insossa do álbum, demonstra exatamente isso. “I’m Turning Around” é baba pura, digna da fase brega do Genesis. Estaria o gigante enlouquecendo? A primeira incursão do GG pelo pop provou que o fim do grupo era inevitável e que não demoraria tanto assim para chegar.

Giant For A Day (1978) *
O penúltimo álbum do GG é considero pelos fãs como o pior de todos os trabalhos da banda. “It’s Only Goodbye” e “No Stranger” chegam a ser embaraçosas até para o fã mais mente aberta. A levada da faixa título também não ajuda, assim como o rockão básico e infantil de “Little Brown Bag”; a pura chatice de “Spooky Boogie” e o mau gosto dos timbres de “Take Me”. Ainda bem que a versão original de Giant For A Day vinha com uma máscara do gigante de brinde, assim o fã poderia se esconder do vergonhoso ato de devolver o disco na loja.

Civilian (1980) **
A amarga despedida do Giant trazia um clima mais dark e pesado; com mais guitarras, quase nada de teclados e um clima totalmente AOR, mostrando que a americanização da sonoridade só levaria mesmo ao fim precoce do maravilhoso grupo progressivo e inovador de outrora. O primeiro disco do Giant que não trazia violões e guitarras acústicas vinha com “All Through The Night” e seu riff zepelliano, a balada “Shadow On The Street” e “Number One”, uma das preferidas do batera John Weathers. Destaque para a presença do ilustre Geoff Emerick, braço direito de George Martin e engenheiro de som dos Beatles.

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