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Os 40 anos da morte de Paul Kossoff

A pZ aproveita a data para investigar a sua carreira e relembrar a ascensão e a queda de um dos grandes nomes da guitarra

por Bento Araujo     18 mar 2016

Paul Kossoff-FreeO Blues inglês dos anos 60 deixou para o mundo uma leva assustadora de guitar-heroes. Jovens ingleses que bebiam nas fontes do blues negro norte-americano e que amplificavam seus fraseados de guitarra transformando o Blues em rock pesado, levando a nova sonoridade a ser a mais moderna mania entre os jovens do mundo todo.

No quesito ‘fama e reconhecimento mundial’, os guitarristas que passaram pelo Yardbirds formam o primeiro escalão dessa turma: Clapton, Beck e Page. No segundo escalão temos Rory Gallagher, Peter Green, Mick Taylor e Alvin Lee, músicos também geniais mas que não conseguiram a projeção e os dólares dos garotos do Yardbirds. Os mais letrados em rock sugerem ainda um terceiro escalão, com Kim Simmonds (Savoy Brown), Stan Webb (Chicken Shack) e Tony Mcphee (Groundhogs). Mas daí eu pergunto, e o Paul Kossoff?

Pode reparar, Kossoff nunca é lembrado nas listas dos grandes guitarristas. Talvez pelo fato dele ter escolhido as notas certas e ter apostado sempre no feeling ao invés da velocidade, a fama não bateu na sua porta como deveria.

O curriculum de Koss destaca uma lendária carreira ao lado do Free, projetos paralelos, uma turbulenta carreira-solo, canjas em álbuns de amigos e uma vida pessoal desregrada e depressiva. Esse era Koss, um guitar hero para poucos, músico que sentia cada nota, dono do ‘vibrato’ mais emocionante do rock, que se foi há quarenta anos…

Paul Francis Kossoff vinha de uma tradicional família de judeus da classe média / alta de Londres. Nascido a 14 de setembro de 1950, no norte de Londres, Koss sempre estudara em bons colégios e seu pai (David Kossoff) era um ator famoso da TV e dos palcos ingleses. O garoto desde muito cedo desenvolveu uma atração compulsiva pelo perigo. Como se ele tivesse que estar sempre no limite para se sentir bem. Aos 14 anos de idade, seus pais o tiraram da escola e pagavam professores para lecionar na própria casa da família Kossoff. A desculpa era que Paul estava andando com más companias na escola e tinha sido flagradao tomando pílulas estimulantes e remédios para emagrecer.

Visando amenizar o problema, a família de Paul sempre incentivava a pratica de esportes para o garoto, mas seu negócio era mesmo a música. Estudou violão clássico durante nove anos, mas a coisa começou a mudar quando passou a ouvir os discos de Ray Charles e Big Bill Broonzy de seu pai. O coroa vendo que o filho se dava muito bem com a guitarra, leva o garoto para a estrada, onde ele tocaria guitarra na peça e seria uma espécie de assistente de palco do pai.

Clapton e Hendrix

Mas o “estalo” na cabeça de Paul Kossoff, aconteceu no inverno de 1965, quando assistiu um show de Eric Clapton com os Bluesbreakers de John Mayall. Numa entrevista para a revista Guitar Player em 1975, Kossoff relembrou: “A minha primeira e verdadeira inspiração ocorreu quando eu assisti aquele show do Clapton com a banda de John Mayall num clube. Eu tinha a sensação que meu aprendizado clássico não seria mais útil naquele estilo de Blues. Meu interesse por guitarra passava a crescer imensamente e passei a curtir muito o trabalho de Peter Green no Fleetwood Mac. Depois passei a ouvir BB King e Freddie King, além de vocalistas como Otis Redding (curiosamente a maior influência de Paul Rodgers como vocalista). Outro show que me impressionou muito foi o de Jeff Beck com Rod Stewart nos vocais”.

Com o “trampo” que descolou na loja de instrumentos Selmer’s Music Shop, passou a estudar e a conhecer muito sobre aparelhagem, amplificadores e tipos de guitarra. Nessa rotina de comércio, um dia marcou para sempre sua vida: “Quando eu tinha cerca de 15 anos de idade e trabalhava numa loja de instrumentos, Jimi Hendrix veio para a Inglaterra com Chas Chandler (baixista dos Animals e manager de Hendrix) e começaram a rodar as lojas para comprar um bom equipamento. Um belo dia a dupla entrou lá na loja que eu trabalhava e fiquei petrificado. Não tinha nenhuma guitarra para canhoto na loja e Hendrix simplesmente pegou uma Fender Strato para destros mesmo, virou-a e começou a tocar algo no estio de“Little Wing”! Ele acabou não comprando nada, mas o simples fato de vê-lo tocar bem na minha frente, mexeu comigo. Eu simplesmente o amava e ele foi e sempre será o meu herói!” Paul Kossoff, em 1976, numa entrevista para a revista Guitar Player.

A explosão do Blues na Inglaterra

O Black Cat Bones surgiu bem na época da explosão do Blues inglês. John Mayall e Alexis Korner eram os anfitriões da festa. Os deuses dessa orgia sonora vinham em forma de guitarristas, como Eric Clapton, Jeff Beck, Peter Green, Alvin Lee, Jimmy Page, Mick Taylor e muitos outros. Paul Kossoff sabia da responsabilidade que teria quando empunhasse sua Gibson Les Paul, e passou a chamar a atenção de todos com seu estilo marcante. A banda de Kossoff e Kirke passou a tocar em vários clubes pela cidade, abriam shows de John Mayall, Ten Years After, Jethro Tull, The Nice e eram contratados como banda de apoio para músicos americanos em visita pela Inglaterra, como o pianista Champion Jack Dupree e Eddie Boyd.

Koss e Kirke sempre iam assistir aos shows de uma banda chamada Brown Sugar, cujo vocalista era um sujeito que ia muito na loja de instrumentos de Koss trabalhava. O noeme dele? Paul Rodgers. Numa apresentação da banda num pub chamado Frickle Pickle, em Finsbury Park, Rodgers chamou Koss para dar uma canja, e o guitarrista acabou mandando “Four O’ Clock In The Mourning”, “Stormy Monday Blues” e “Everyday I Have The Blues”, todas de BB King. O que era uma simples canja acabou se tornando uma participação de 45 minutos (quase o show inteiro do Brown Sugar), que Paul Rodgers nunca esqueceu: “Essa jam com Paul Kossoff foi o que fez valer a pena a minha persistência em Londres naqueles tempos difíceis. Durante a execução daquela passagem lenta de “Stormy Monday Blues”, era possível se ouvir uma gota caindo numa poça de água! Foi tão intenso e emocional que tivemos que descer do palco dizendo as pessoas, sim, nós estamos formando uma banda juntos!”

Kossoff impressionado com seu xará, convida Rodgers para integrar o Black Cat Bones, mas Rodgers sentia que se ele entrasse numa banda já formada, iria continuar no mesmo lugar, tudo seria a mesma coisa. Agora se criassem algo novo, tudo seria diferente. “Eu tinha tudo para criar um novo grupo. Já tinha composto “Walk In My Shadow” e “Over The Green Hills” (ambas que viriam a aparecer no primeiro álbum do Free). Além de que eu e Kossoff estávamos nos concentrando plenamente em fazer shows nos clubes. Ninguém queria mais ter que trabalhar numa fábrica ou numa loja no dia seguinte!”

Desse anseio por novidade surgiu o Free, banda formada por dois dissidentes do Black Cat Bones (Koss e Kirke), Rodgers e um baixista indicado por Alexis Korner (lenda do Blues inglês, que batizou a banda de ‘Free’), o jovem Andy Fraser (de apenas 16 anos de idade!).

Audições em 1969

Quando o Free tinha acabado de lançar seu auto-intitulado segundo álbum, Koss ficou sabendo que os Stones e o Jethro Tull estavam procurando por um guitarrista. Imediatamente o jovem músico, então com 18 anos de idade, se prontificou a encarar o desafio e partir para as audições com ambas as bandas. A própria história mostrou que os Stones ficaram com Mick Taylor e o Jethro com Martin Barre, porém só pelo fato de Koss ser levado em consideração nas audições, isso já foi um enorme prazer para ele. Aos poucos ele ia sendo reconhecido como um novo talento da cena inglesa.

Logo na seqüência, a gravadora do Free (Island), agendou para os rapazes uma tour pela América como banda de abertura para o Blind Faith e para o Delaney & Bonnie. Koss tocando horrores impressionava platéias pelos EUA, até que um belo dia, ninguém menos que Eric Clapton entrou no camarim do Free e pediu humildemente para que Paul ensinasse seu “vibrato” a ele. Dar uns toques para “Deus” era demais para aquele moleque!

Clapton, animado com o estilo de Koss, sugere uma troca de instrumentos para selar a amizade entre a dupla. O Slowhand ofereceu uma Les Paul de 1959 com pintura “Sunburst” e ficou com a Les Paul Custom preta de Koss. (Essa sunburst que pertencia ao Clapton foi parar depois nas mãos de Paul Rodgers que leilou o instrumento e doou o dinheiro para a The Paul Kossoff Foundation, uma instituição de caridade liderada pelo pai do guitarrista).

Riff Memorável

Seus solos, seus ‘vibratos’ e seu bom gosto na economia das notas já eram lenda nos shows e nos dois primeiros álbuns do Free. Porém faltava um riff, uma frase impactante como a introdução de “Johnny B. Good”, cunhada por Chuck Berry ou de “Satisfaction” de Keith Richards. Tal riff surgiu nas mãos de Koss em 1970 e foi registrado na música “All Right Now”, peça fundamental do terceiro álbum do Free, Fire and Water. “All Right Now” foi um dos singles mais vendidos da Inglaterra e a música do verão inglês de 1970.

O som áspero, rude e cru de Paul Kossoff estava imortalizado para sempre. Essa música já foi regravada por milhares de bandas e guitarristas através dos anos. Desde Brian May, passando por Peter Framptom, Slash, Ritchie Blackmore, Neal Schon, Joe Walsh e muitos outros. Mas eu sempre gosto de ressaltar um detalhe: Eu nunca ouvi ninguém (eu disse NINGUÉM!) tirar sequer um som semelhante com que o Koss tirava na versão original de “All Right Now”.

O sucesso estrondoso da música, levou o Free ao topo das paradas inglesa e norte-americana, mas o mais importante, levou a banda a ser incluída no disputado cast do Festival Da Ilha de Wight daquele ano, ao lado de Hendrix, Who, Doors, Ten Years After, EL&P e outros.

O show do Free foi histórico porém o que mais impressionou a banda foi um exaltado Pete Townshend vir até a van dos rapazes cumprimentá-los pelo sucesso de “All Right Now”. Pete fez questão de apertar a mão de Koss e elogiar seu estilo de tocar guitarra.

Enxergando o fim

Apesar do prestígio de Koss, alguma coisa parecia sempre estar errada. A depressão era uma constante na vida do guitarrista. Simon Kirke costumava dizer que no palco ele parecia um leão e fora dele um cordeirinho. O vulnerável e pequeno Koss se apegava cada vez mais nas drogas pesadas. Tudo piorou muito quando em setembro de 1970, Jimi Hendrix, o maior ídolo da vida de Koss morre acidentalmente, sufocado pelo próprio vômito. Kossoff ficou desolado, quis largar tudo e partir para o funeral, em Seattle. Coube a Simon Kirke fazê-lo desistir da ideia.

As pressões do estrelato e a necessidade de continuar a lançar singles certeiros como “All Right Now” para se manter no topo foi desgastando demais o Free. Tudo isso aliado ao estresse da estrada foi crucial para o fim da banda que se aproximava logo após o lançamento de Highway, álbum que trazia uma espetacular atuação de Koss. Nas baladas “Be My Friend” e “Love You So” ele deixava uma espécie de testamento de sua genialidade, colocando o coração em cada nota. A guitarra de Koss somada a voz impregnada de Soul de Rodgers atinge seu ápice em Highway. Na metade de 1971 a banda resolve dolorosamente se dissolver e a gravadora resolve capitalizar um pouco mais em cima do nome deles e lança o apenas razoável Free Live!

Koss pós-Free

Koss não se contentava somente com álcool e maconha. Pílulas e outras drogas mais pesadas deixavam o guitarrista cada vez mais irreconhecível. Sua fala ficava arrastada e quase incompreensível. Chegava a apagar nas sessões de estúdio e quando pegava a guitarra era assustador. Não conseguia mais manter o ritmo nas bases. Seu ‘vibrato’ potente e característico perdia todo o brilho e soava angustiado, impotente. A cada mês seu estado piorava. Os companheiros de banda já nesse ponto não enxergavam um futuro promissor para Koss, completamente arrasado pelo fim prematuro do Free.

Amigos, conscientes de seu estado crítico, o convidavam para jams, tentando reanimá-lo com novas experiências musicais. No fim de 1971, ele sobe ao palco junto de Jim Capaldi e Ken Hensley. Com John Martyn registra em um show uma de suas melhores atuações (de onde saiu a espetacular faixa “Time Away”). Viaja para o Japão para tocar com um novo amigo Tetsu Yamauchi. Jim Capaldi, profundo admirador de Koss o convida para a gravação de seu primeiro disco solo “Oh How We Danced”, gravado no lendário estúdio Muscle Shoals no Alabama. Durante a gravação, Koss ingere tantas pílulas que Chris Blackwell, o chefão da Island, resolve internar o guitarrista em uma clínica de reabilitação em Miami, antes da volta de ambos para Inglaterra. Poucos dias depois Koss foge da clínica e voa para Londres, imediatamente contactando Kirke para formarem um novo projeto. Koss passa a ter um interesse assustador pela morte e fica buscando uma sonoridade semelhante a de Hendrix. Passa a usar um Fender Strato e usar caixas Leslie para tentar soar como seu ídolo.

KKTR

Koss, Kirke, Tetsu e Rabbit. Esse era o novo projeto de Koss. John “Rabbit” Bundrick era norte-americano e foi recrutado para participar do projeto. O rosto de Koss aparecia devastado na capa do álbum, prova do que as drogas estavam fazendo e da desolação após o fim de sua banda. As gravações foram turbulentas com o guitarrista tentando ficar de pé no estúdio. Duas novas composições do guitarrista aparecem no álbum, uma é “Just for the Box”, uma instrumental chapante e outra é “Colours” uma tentativa frustrante de Koss fazer também os vocais. Seria engraçado se não fosse trágico. Koss chegou a declarar para um jornalista inglês que ele tomava três pílulas de Mandrax para conseguir sair da cama e passar o dia. Quando ficava sem a droga, parecia sofrer um ataque epilético e passaram a ser comum as quedas. Cicatrizes e a perda de dois dentes foram as conseqüências. Era comum ver alguns amigos mais chegados se emocionaram com o estado de Koss, todos torciam para ele conseguir sair daquela.

Volta do Free

Fraser, Rodgers e Kirke chegam a conclusão que somente uma volta do Free seria capaz de animar Paul Kossoff e resgatá-lo da morte que o rondava cada vez mais. Andy Fraser chegou ao cúmulo de ter que “seqüestrar” Koss dentro de sua própria casa: “Você abria a porta da casa de Koss e tropeçava em cerca de 30 ou 40 pessoas largadas no chão. Ele ficava o dia inteiro deitado e as pessoas trazendo drogas para ele. Parecia que ele já tinha morrido…O único jeito de salvar Koss era tirá-lo imediatamente dali, então um belo dia eu fui lá com um roadie, subi as escadas e raptei Koss enquanto sua namorada gritava e fazia um verdadeiro escândalo! Colocamos ele no meu carro e levamos ele para minha casa de campo. Ficamos lá por três dias, sentamos e conversamos com ele, tentamos colocar a cabeça dele no lugar e levantar sua auto-estima. Infelizmente não funcionou…” declarou Fraser para a revista inglesa Mojo.

Em 1972, sai Free at Last, a mais amarga despedida que essa formação poderia esperar. Comparado aos anteriores, o disco soava arrastado. O clima entre eles na gravação do disco era o pior possível.

A tour de promoção foi deprimente. Na Inglaterra, shows eram cancelados e interrompidos pela metade devido aos colapsos do guitarrista, que geralmente desabava depois da segunda música. Na América, bem na noite de abertura da tour, no Palladium de Los Angeles, Fraser encontrou Koss desmaiado no banheiro do camarim poucos minutos antes da banda entrar no palco. A banda entrou em cena sem o guitarrista, tocou três faixas acústicas, se desculpou na frente da multidão e voou para casa, cancelando todas as datas restantes.

Fraser não agüenta mais tanta loucura e abandona o grupo antes de uma tour japonesa. Koss incapacitado não vai com a banda para o Japão. Lá o Free se apresenta com Rodgers fazendo vocais e guitarra, Kirke, Testu e Rabbit.

Na Inglaterra o guitarrista é submetido a uma terapia “neuro-elétrica”, método que tinha salvado Clapton do seu vicio de heroína algum tempo antes. Para Koss o tratamento não surtiu o efeito desejado. A prova disso foi sua volta traumática para os palcos com o Free em setembro de 1972. Em um dos shows ele desmaiou em cima da bateria de Kirke, que sempre paciente tentava na medida do possível socorrer o amigo. Em diferentes casas de show, Kirke era flagrado trocando as cordas e afinando a guitarra de Koss. Ele chegou até a amarrar os sapatos do guitarrista que em certo ponto não sabia nem onde estava. Todo esse baixo astral culminou com uma overdose do guitarrista durante a passagem de som em Newcastle. O show foi adiado e Koss foi parar no hospital e quando saiu conseguiu fazer a data remarcada de Newcastle. No fim do show Koss estraçalhou sua Les Paul no Hammond de Rabbit como resposta as duras críticas feitas pelo tecladista ao seu estado mental e emocional. Essa foi sua última aparição ao lado do Free.

Mesmo assim a banda ainda arruma forças para lançar mais um disco, Heartbreaker, em 1973, contando com Tetsu Yamauchi no baixo e Rabbit nos teclados. Impossibilitado de excursionar e de comparecer as gravações, Kossoff aparece como “convidado” e mesmo assim toca em cinco das oito músicas do álbum. Suffy Walden do Stray Dog é chamado para completar o restante do disco.

Para a tour norte-americana, onde o Free seria supporting-act do Traffic, Koss fica de lado e é substituído por Wendell Richardson do Osibisa.

Novos caminhos

O fim da banda é inevitável e em fevereiro de 1973, tudo acaba. Rodgers e Kirke formam o Bad Company e Kossoff lança seu primeiro disco solo Backstreet Crawler, que nada mais era do que uma compilação de jams sessions, pois o guitarrista estava impossibilitado de entrar no estúdio e gravar um disco inteiro nessa época, pois seu uso de heroína estava cada vez mais crítico.

Koss vai parar na corte inglesa, acusado de dirigir embriagado e sobre o efeito de drogas. È multado em 250 libras e aceita um tratamento no St. Pancreas Hospital. Saindo do hospital, ele luta para montar uma banda própria. Toca com Graham Bond, grava com uma excelente banda folk, o Amazing Blondel, monta a The Humbledown Band ao lado de Andy Fraser e Frankie Miller, toca com Peter Green (durante uma mísera hora de gravação, alguém tem isso gravado?) e com Nic Potter (baixista do Van Der Graaf Generator) e busca uma ponta em alguma grande banda.

Pouco tempo depois, Kossoff toma emprestado o nome de seu disco solo e batiza sua nova banda de “Backstreet Crawler”, lançando o disco The Bands Play On, em 1975. O grupo contava com Terry Slesser nos vocais, Koss na guitarra, Terry Wilson no baixo, Mike Montgomery nos teclados e Tony Braunagel na bateria. Graças ao amigo e promotor de shows Geoff Docherty, Koss parecia retomar uma aparência pelo menos ‘aceitável’ novamente. Geoff forçou Koss a uma dieta a base de peixes e verduras. Fez o guitarrista fazer um pouco de exercícios leves e nunca o deixava sozinho um minuto sequer.

Apesar dos cuidados, o guitarrista injetava heroína nos seus pés, escondendo de todos o vício ainda contínuo.

Em agosto de 1975, ele é internado com uma úlcera e uma semana depois o quadro dele se agrava bastante com um ataque cardíaco e uma queda em seu sistema nervoso. Koss ficou tecnicamente morto por 35 minutos! Os médicos conseguiram trazê-lo de volta e alertaram que se ele não parasse completamente com as drogas, estaria morte em questão de alguns dias.

Um mês depois de quase ter fechado seu olhos pra sempre, Koss voltava a abusar. Shows em Liverpool e Glasgow foram horríveis com o guitarrista caindo de cima do palco e tocando muito mal. Uma apresentação no programa de TV The Old Grey Wistle Test mostrava Koss pálido e doente, tentando empunhar sua guitarra. Muito triste!

Rabbit vem para os teclados do Back Street Crawler e todos se mandam para os EUA para a gravação do segundo disco.

Koss tão atordoado pelas drogas não consegue render no estúdio. O empresário Johnny Glover se desentende com o guitarrista o acusando de gastar tempo e dinheiro com seus maus hábitos. Koss voa para cima do empresário atacando-o com uma garrafa de whisky. Glover parte pra cima de Koss e a briga deixa o guitarrista com dois dedos de sua mão esquerda quebrados.

O último e trágico ano de Koss

1976 foi o ano mais curto e mais complicado para o ex-guitarrista do Free. Para Rabbit, seu companheiro de banda até os últimos dias, Koss era como um paciente em estado terminal. Todos sabiam que ele morreria muito em breve, era apenas uma questão de tempo. Seus amigos viam sua degradação aumentar a cada dia que passava.

Um companheiro de excessos de Paul nesses últimos meses era John Bonham. Ambos eram carregados pra fora de restaurantes e bares devido a bebedeira, e um caso ficou famoso quando foram pegos cheirando pó em um banheiro público de um hotel em Los Angeles.

Enquanto o Bad Company (estouradaço na América) vendia milhares de cópias de seus dois primeiros discos, lotava estádios e estudava novas estratégias de marketing para mais um lançamento, Koss apenas lutava para se manter vivo por mais um dia.

Com dois dedos de sua mão esquerda quebrados, Koss gravava alguns solos usando apenas dois dedos. Incapacitado de concretizar suas partes de guitarra no segundo álbum do Backstreet Crawler, novamente Snuffy Walden é chamado para dar uma força e o disco (Second Street) ia sendo gravado em processo lento e traumático em um estúdio de L.A.

Coincidentemente o Bad Company estava na cidade, onde tocaria por duas noites (ambas sold-out) no Inglewood Forum, para um público de 34.000 pessoas no total.

Milagrosamente, na mesma semana, Paul Kossoff arranjou forças e foi agendado quatro shows do Backstreet Carwler no pequeno clube Starwood, com capacidade para 400 pessoas e que ficava na Sunset Strip, em Hollywood. Simon Kirke entrou em contato com Koss e sugeriu uma jam no Starwood. Peter Grant (que além de empresariar o Led fazia o mesmo com o Bad Company) aprovou a idéia, então ficou acertado que Paul Rodgers, Simon Kirke e Paul Kossoff subiriam no palco do Starwood depois de três anos separados. Foi feita uma ligação para Andy Fraser convidando-o para a ocasião, pois com sua participação a formação original do Free estaria subindo no palco novamente. Fraser negou veemente o convite e nunca mais se encontrou com Koss (Fraser foi inclusive o único integrante do Free a não comparecer no funeral do guitarrista).

No Starwood o Backstreet Crawler fez as quatro datas, sendo que nas duas últimas o pessoal do Bad Company participou da encore. Além de Rodgers e Kirke, Boz Burrel e Mick Ralphs também participaram da jam. Os amigos de banda comentaram que Koss escolheu sua melhor roupa, tocou ‘limpo’ e tirou sons maravilhosas de sua guitarra naquela noite.

Essa foi a última vez que Rodgers e Kirke viram Koss, como relembra o vocalista: “Koss estava realmente entusiasmado naquela nossa Jam e talvez tenha esperado este fatídico último momento para aceitar sua condição e finalmente dormir, dessa vez em um longo e tranqüilo sono eterno”. Aquele seria mesmo o último show de Koss, a última vez que ele subiu em um palco.

O empresário de Koss sentia que o guitarrista não viveria mais por muito tempo e tentava a todo custo concretizar o novo álbum. Já a gravadora queria ouvir os tapes antes de qualquer lançamento precipitado. Ficou acertado então que o empresário e o guitarrista iriam levar os tapes para o pessoal da Atlantic ouvi-los em Nova York. Mesmo incapacitado de empunhar sua guitarra e até mesmo confabular uma frase inteira, Koss foi convencido a marcar uma tour britânica de 20 shows que começaria em abril.

Antes da viagem o pessoal agitou uma festinha no hotel onde a banda estava hospedada. Pra variar muito rock rolando, garotas passeando por todos os quartos e drogas pesadas por todo lado.

O vôo, a despedida

Nas últimas horas do dia 18 de março de 1976, Paul Kossoff, seu empresário Johnny Glover e o batera Tony Braunagel embarcaram em um vôo de quatro horas. Partiram de Los Angeles com destino a Nova York.

Quando o novo dia estava prestes a amanhecer, o aviso de apertar os cintos surgia nos falantes e o avião se preparava para posar. Uma aeromoça fazia sua tradicional vistoria e percebeu que o assento onde estava Koss estava vazio. Ela se dirigiu a Glover (que estava dormindo, sentado ao lado da poltrana de Koss) e perguntou onde estava seu companheiro. O banheiro era a opção mais óbvia e foi lá que acharam Koss morto.

O avião pousou, todos os passageiros foram deixando a aeronave aos poucos enquanto o dia clareava. Glover e Braunagel foram os únicos que permaneceram em suas poltronas em estado de choque.

Paul Kossoff morria em 19 de março de 1976, com apenas 25 anos de idade.

‘The Enterprise’ o equipamento de Paul Kossoff

Late 50’s Sunburst flametop Les Paul Standard (58-60)
’54 Gibson Les Paul Custom (preta, com três captadores)
Gibson ES 335 (na época do segundo álbum do Free)
Duas 50’s Les Paul (com captadores PAF)
’57 Fender Stratocaster (Branca) – Maple Neck (Que ele aparece na capa do LP Back Street Crawler)

Cabeçotes Marshall 100 Watts Super Lead
Dois gabinetes feitos por ele mesmo. Cada um contendo quatro falantes de baixo de 12 polegadas.
Fender Tremolux (na época do segundo álbum do Free)
Duas caixas Leslie

Palhetas – Heavy e cordas pesadas (011 / 052 no mínimo) com a sol (G) desencapada. Esse era um dos seus segredos, que lhe garantia um vibrato extra.

DISCOGRAFIA SELECIONADA:

FREE:

Tons of Sobs (1968) – Estreia de Kossoff em disco, onde ele arrasa no blues “Goin’ Down Slow” e já dá mostras de seu inconfundível timbre de guitarra.

Fire and Water (1970) – O maior clássico do Free, contém o mega hit “All Right Now”, seu mais conhecido riff de guitarra.

Highway (1970) – Recheado de baladas, o disco mais sentimental e deprê do Free. Habitat perfeito para Kossoff brilhar em canções como “Love you So” e “Be My Friend”.

KKTR:

Kossoff/Kirke/Tetsu/Rabbit (1972)¨ – Interessante projeto levado a cabo pelo guitarrista. Curiosidade: Kossoff canta na faixa “Colours”.

PAUL KOSSOFF:

Backstreet Crawler (1973) – Primeiro disco solo de Kossoff, na verdade uma compilação de jams de estúdio. Destaque para a linda e emotiva balada “Molten Gold”, onde todos os integrantes do Free participam.

Blue Soul (1986) – 17 faixas nessa ótima compilação recheada de raridades. Traz gravações de Kossoff junto com Jim Capaldi, e bandas obscuras como Uncle Dog e The Rumbledown Band.

BACKSTREET CRAWLER:

The Band Plays On (1975) – Primeiro disco da banda formada pelo guitarrista. Vendeu pouco e passou despercebido na época. Hoje, seus dez temas soam como agradável surpresa.

Second Street (1976) – Derradeiro registro de Kossoff, que morreu durante as gravações do álbum. Amarga e bela despedida, bem no estilo do guitarrista, como fica claro na faixa “Blue Soul”.

Backstreet Auction

Guitarra de Paul Kossoff vai a leilão

por Radames Junqueira     02 dez 2015

Koss GuitarA Gibson Les Paul 1959 que um dia pertenceu a Paul Kossoff será leiloada em breve. O guitarrista do Free e do Backstreet Crawler usou o instrumento de 1970 até a sua prematura morte, em 1976.

Seu amor pela guitarra era tamanho que, mesmo após ter quebrado o braço dela num show, ele se recusou a se desfazer do instrumento. Na noite do fatídico episódio, o guitarrista do Beckett, Arthur Ramm, emprestou sua guitarra para Kossoff terminar seu show.

Após a morte de Kossoff, a sua amada guitarra foi então parar nas mãos de Arthur, que a vendeu para a famosa casa de leilão londrina Bonhams, que espera alcançar um alto valor com a guitarra, já que Kossoff é apreciado por muitos fãs, músicos e até mesmo guitarristas famosos como Dave Murray, Joe Bonamassa etc.

poeiraCast 240 – Guitarristas Subestimados

Nossa conversa é sobre aqueles heróis da guitarra que geralmente não são citados entre os maiores mas têm Mais

por Bento Araujo     01 jul 2015

Nossa conversa é sobre aqueles heróis da guitarra que geralmente não são citados entre os maiores mas têm calibre para estar lá.

Andy Fraser (1952-2015)

O ex-baixista do Free faleceu aos 62 anos de idade. Relembre a entrevista que fizemos com ele

por Bento Araujo     17 mar 2015

Andy Fraser

Foi confirmada a morte de Andy Fraser, no dia 16 de março, aos 62 anos de idade. O ex-baixista do Free faleceu em sua casa, na Califórnia.

A causa da morte ainda não foi confirmada, mas sabe-se que Fraser sofria de Aids e havia superado um câncer recentemente.

O baixista começou bem jovem, tocando com os pais do blues britânico: Alexis Korner e John Mayall. Passou por bandas como Toby, Sharks e Rumbledown Band, além de ter lançado vários álbuns como artista solo e com a Andy Fraser Band. Mas Fraser será sempre lembrado principalmente pelo trabalho que realizou ao lado do Free, onde atuava como baixista, pianista e compositor principal ao lado do vocalista Paul Rodgers. “All Right Now”, o maior sucesso da dupla, foi lançado em 1970.

Andy Fraser ainda influenciou milhares de baixistas mundo afora, com seu estilo único e seu timbre peculiar de contrabaixo elétrico. “Mr. Big”, outra composição dele lançada pelo Free em 1970, inovou por trazer um solo de baixo, algo atípico dentro do rock.

Abaixo relembramos a entrevista que fizemos com ele para a edição 36 da poeira Zine, que trazia o Free na capa e um especial de várias páginas sobre o grupo.

andycooljpgComo foi a experiência de tocar ao lado de John Mayall?

Uma grande experiência de aprendizado. Eu via a todos como os seniors, e não questionava nada; só tentava absorver tudo o que eu podia. Mick Taylor, aos 19 anos, era o mais próximo da minha idade, então nos dávamos bem. Na verdade éramos só nós que fumávamos baseado naqueles tempos, sorrateiramente. Provavelmente seríamos mandados embora se Mayall tivesse descoberto. Uma experiência inesquecível foi em Amsterdã, em minha primeira tour européia, fumando aquele bagulho forte que eles têm lá. De volta ao meu quarto, e essa foi a única vez que experimentei isso, deitado na minha cama, eu podia perceber perfeitamente todo o sangue em minhas veias, correndo para o meu pênis e causando uma intensa ereção. Fiquei tão dominado por isso que tive de ir contar a Mick, que me olhou com um ar tipo “você tá mesmo doidão, garoto”. Nosso corpo desempenha essas funções o tempo todo, e não temos consciência disso, então realmente dei muito valor. Nada sexual nisso… apenas percebê-lo foi uma emoção.

É verdade que você foi namorado da filha de Alexis Korner? Isso foi antes ou depois de você tocar na banda dele?

Sim. Nós íamos à faculdade juntos, e ela me levava à sua casa, onde a família mais ou menos me adotou, e Alexis tornou-se para mim um pai substituto. Isso foi antes de eu tocar em sua banda, o que machucou um pouco Sappho (a filha de Korner), eu acho, porque de sua perspectiva, o pai estava dando ao namorado dela toda a atenção.

A música “Mr. Big” tem um dos melhores solos de baixo da história. Como você conseguiu aquele solo em uma época em que a guitarra ditava as ordens em uma música, principalmente tendo o grande Paul Kossoff como guitarrista?

Nunca houve problema com Koss ou qualquer outro achando que o baixista não poderia fazê-lo. Lembro-me da música sendo feita em meu quarto, na casa de minha mãe. Toda a banda estava lá. Simon (Kirke) estava brincando no baixo, e tocou as três primeiras notas da introdução. E eu disse: “Toque isso de novo! Gostei disso.” Improvisamos por um tempo nesse tema, e quando chegamos à outra parte intermediária, comecei a fazer frases, algo entre Binky Mckenzie e uma faixa em um álbum de Isaac Hayes onde o baixista simplesmente levanta voo, e eu pensei: “Legal! Vou tentar”. Pra quem não sabe, Binky Mckenzie é um ex-namorado de minha irmã mais velha, e provavelmente o melhor baixista de todos os tempos, antes de ele matar quatro pessoas com as próprias mãos – está em prisão perpétua na Inglaterra…

O que você acha do Bad Company? Na sua opinião eles conseguiram ter o mesmo charme do Free ou se renderam ao som mais comercial?

Eu lhes desejo tudo de bom com seu sucesso comercial. Para muitos eles têm o mesmo charme e influência do Free, e para muitos eles não têm. Nenhum de nós consegue ser amado por todos.

Qual o real motivo do seu afastamento do Free e qual sua opinião sobre o álbum Heartbreaker?

Em poucas palavras, acredito que se nos primeiros dias Paul Rodgers e eu precisávamos um do outro para terminar as ideias de cada um, chegou um ponto em que isso não acontecia mais. Fomos em direções diferentes. Paul disse que queria ir em uma direção mais “Led Zeppelin”, o que para mim era absurdo, já que eu achava que eles estavam nos copiando, e eu queria seguir em direções desconhecidas, rumo ao horizonte, e ver o que descobriríamos. Ou seja, se os Beatles tivessem achado que estouraram com “I Wanna Hold Your Hand” e apenas se prendessem àquela fórmula, nós nunca teríamos algo como “Strawberry Fields Forever” e todas as outras canções originais que eles foram corajosos o suficiente para buscar. Não impor limites. Era uma época em que Paul Rodgers havia casado, tido um filho, pareceu ter ficado um pouco nervoso após o follow up de “All Right Now” não ter a mesma magnitude, e resolveu que era hora de ele tomar o controle. Fui tratado como um músico contratado, que deveria guardar suas opiniões para si, e Koss (Paul Kossoff) foi pego, e nós sabemos como isso terminou. Concluímos que não estava funcionando, e foi minha função anunciar que tínhamos nos separado. Então fui ludibriado, como se eu tivesse saído. Rodgers usou a oportunidade para continuar usando o nome Free, o que eu acho que poderia ter contestado, mas é tão triste quando as bandas fazem isso, e só assisti a banda sucumbir ao seu próprio peso, como achei que iria. Heartbreaker – hmmm… rima com Andy Fraser. Achei que havia algumas coisas boas, e outras não tão boas. Uma sensação de ruína. Snuffy (Walden), um guitarrista muito talentoso emulando Koss, etc. Pra mim foi melhor estar fora dessa.

Sharks

Andy Fraser no Sharks

Como foi trabalhar ao lado de Chris Spedding no projeto Sharks? Vocês ainda mantêm contato? Por que a banda não foi adiante?

Chris Spedding é um guitarrista muito qualificado, e tem uma doce personalidade, embora seja um pouco maluco. O problema é eu ter deixado o projeto se desenvolver ao meu redor, quando eu realmente queria e precisava fortalecer meus vocais. Em algum ponto, ou a banda, ou a gravadora concluiu que meus vocais ainda não tinham tanta força, o que podia ser verdade. Então trouxeram Snips, com quem eu realmente não chegava a um acordo. Aí, após Chris Spedding bater o famoso “Sharkmobile” numa árvore e eu quebrar o dedão, não podendo tocar por um tempo, eu disse: “é melhor vocês acharem outra pessoa pra tocar o baixo”, o que foi minha saída. Recentemente nós mantivemos contato com Marty Simon, que mora no Canadá novamente, e planejamos nos encontrar quando ele vier ao sul da Califórnia com seu filho. Eu vi Spedding há poucos anos em Los Angeles, e ele estava morando no que parecia ser uma cabana de um junkie. Isso me entristeceu. Mais um guitarrista. Ouvi dizer que ele está indo melhor agora, e espero que seja verdade.

O que você achou da volta do Queen com Paul Rodgers, seu antigo companheiro de estrada?

Pegou-me de surpresa, como a todos. Provavelmente foi bom que Brian May tenha cuidado das coisas, deixando que Paul simplesmente cantasse, o que ele estava precisando, mas era algo como se B.B. King ou, digamos, Steve Winwood se tornasse o cantor do Queen, apenas um pouco estranho. Achei que era uma grande oportunidade de seguir em frente com um repertório matador, com novas músicas, e acontecer de verdade, mas algumas datas com uma nova versão do Bad Company é tudo o que parece ter acontecido em seguida. Sabendo que algo logo viria na sequência, como numa breve fusão corporativa, acredito que estejam usando um fantoche agora, em um novo projeto. Deve ter sido estranho, para Paul, ter um vídeo do cantor anterior (Freddie Mercury) projetado atrás dele. Não consigo imaginar uma situação dessas…

Existe alguma possibilidade de reunião do Free, ainda que só para um show apenas?

Há mais chance de nós nos casarmos novamente com as ex-exposas (risos). Essa questão aparece toda hora. Semana passada houve uma proposta séria para tocarmos no O2 (Arena) em Londres.

Fale sobre a RUMBLEDOWN BAND, da qual você participou ao lado de Frankie Miller e Paul Kossoff. Vocês deixaram algum álbum arquivado ou foi somente algumas demos, como a famosa “I Know Why The Sun Don’t Shine”? Por que o grupo não deu certo?

Foi tudo basicamente para ajudar Frankie Miller. Nunca houve uma “banda” de fato. Apenas fazia o que podia, quando podia. Eu escrevia músicas com ele, gravava, arrumava outros músicos que também o amavam tanto quanto eu, e há muitos, e ele pôs o nome “Rumbledown Band”. De vez em quando gravávamos no Basing Street Studios, da Island, que não era longe da casa de Koss, a poucas ruas dali, e Koss naqueles tempos ia cantarolando no saguão do estúdio, guitarra em punho, louco, perguntando a todos: “Posso tocar com você?”. Quando gravávamos “I Know Why the Sun Don’t Shine”, Koss aparecia, e embora estivesse bêbado como sempre, nós dizíamos, “ponha uma guitarra nesta parte”, e apesar das suas condições, fazia-a gritar, como você pode ouvir. Sim, Frankie tem centenas de pérolas inéditas, algumas compostas comigo, que o mundo deveria ouvir. Eu refiz uma – “Standind at Your Window”, em meu disco Naked… And Finally Free, inicialmente para o álbum-tributo a Frankie Miller, que pode ser encontrado no site mctrax.com. Pra quem não sabe, há vários anos (em 1994), Frankie, um de nossos melhores cantores, sofreu um aneurisma cerebral em Nova York, ficou em coma por três meses, e, com exceção de poucas partes do corpo, ficou paralizado desde então. Tem lutado até hoje, com a ajuda de sua esposa Annette, enfermeira e a melhor parceira que qualquer homem poderia ter. Uma santa.

Andy Fraser à frente do Free, 1968

Andy Fraser à frente do Free, 1968

Você foi um dos músicos/amigos que mais ajudou o guitarrista Paul Kossoff quando este estava afundado nas drogas. Houve um momento em que você desistiu de ajudar. Fale mais sobre isso…

Um dia fui à casa dele com meu roadie, Jim Macguire, que morreu na carroceria de um caminhão alugado quando foi a sua vez de tirar uma soneca lá atrás, nas longas jornadas entre shows nos States. Os roadies arrumavam os equipamentos após um show, e levavam para o próximo. Esse caminhão, em particular, tinha um vazamento de monóxido de carbono, e Jim foi encontrado morto quando foram acordá-lo. Não é o tipo de notícia de que precisamos logo antes de subir ao palco para o próximo show. Na casa de Koss encontramos centenas de doidões fracassados deitados por todo o chão, e Koss no andar de cima, debilitado, recebendo mais e mais drogas de outros fracassados. Não aguentamos ver aquilo e simplesmente o sequestramos (ninguém ali parecia perceber que estava tão louco), e o levamos para minha casa, a uma hora dali, em Surrey. Por três dias, tentamos tudo o que podíamos, e falhamos. Após três dias, tivemos de simplesmente levá-lo de volta. Essa experiência nos partiu o coração, mais do que você imagina.

Nos anos dourados do Free você sempre usou o Gibson EB3. Existiu alguma razão específica para isso acontecer? Esse ainda é o seu baixo favorito?

Creio que encontrei esse baixo por acaso. Era confortável, pequeno, o que me convinha, por eu ser baixo, então nós (o Free) nos tornamos um só, a meus olhos e aos dos outros também. Com exceção de Simon, que era umas polegadas mais alto, todos nós medíamos por volta de 1,65m. Esse baixo eventualmente foi roubado, o que foi uma merda, mas atualmente me parece mais confortável tocar com um Tobias, praticamente a mesma sensação. Tobias é uma pequena empresa que foi comprada pela Gibson.

Sua voz é muito forte. Por que você não cantava no Free, e quais cantores moldaram seu estilo de cantar?

Minha voz se tornou mais forte, mas eu queria cantar pelo menos um pouco com o Free, e me desenvolver nisso. Se você reparar, quando Rodgers cantou com Stevie Ray Vaughan, Gary Moore, David Gilmour – a lista é interminável, todos ótimos cantores, mas nunca cantaram com Rodgers. Pergunta-se: Por quê? O que posso dizer é que o mesmo se aplicava a mim, uma das razões pelas quais foi melhor eu partir pra outra. Paul foi, obviamente, uma grande influência, e todos os que nós ouvíamos, conforme já mencionei. Mas pode acrescentar Staple Singers, Beatles, atualmente John Mayer, Beyoncé… Dolly Parton é uma ótima cantora gospel, Lou Gramm, Steve Perry, Steve Winwood… Aprendo com todos, e gosto de muitos.

Qual era a “faísca” na parceria de composição Fraser / Rodgers?

Suponho que um tinha o que faltava ao outro. Personalidades muito diferentes. Quando se pensa nisso, eu sendo gay, e ele tendo que depilar as costas regularmente. Isso me faz pensar em, digamos, a dupla Lennon/McCartney, em que, quando duas personalidades tão diferentes encontram algo em comum, é possível dominar o mundo.

O que fazia de Paul Kossoff um músico tão especial?

Ele tinha um senso de integridade que nos mantinha sob controle, um incrível senso de humor, mantendo a verdade à frente, como um bom satirista faz, e ele tocava com o coração. A chave para emocionar as pessoas.

Você, mais recentemente, revelou que é gay, HIV positivo, e até já pensou em suicício… Como essas batalhas pessoais, emocionais e espirituais reverberaram em seu novo despertar musical?

Essas experiências despiram-me totalmente, mudando completamente meus valores. Quando fama, fortuna, amigos, médicos, tudo deixa de poder lhe ajudar, e eles perdem o valor, é hora de penguntar: o que restou? Fé. Fé em quê? “Encontrei Deus”, quando percebi que era gay. É o título de uma música do recém-lançado On Assignment em mctrax.com. Hoje, sinto todos os dias que tudo é um bônus, e vejo valor até mesmo nas menores coisas. A vida é grandiosa, sinto me livre, com sorte, grato, abençoado, quer dizer, quando não estou puto com algum fanático religioso idiota. Acredito que isso se reflete em minha música. Ser capaz de trabalhar com o que amo, sentir paixão por isso, é o maior presente.

Toby

Andy Fraser no Toby

Uma de suas últimas apresentações ao lado de Paul Rodgers foi no Woodstock II, em 1994. Conte-nos mais sobre aquela ocasião especial…

Acabou não sendo tão especial… Paul me telefonou de última hora e, estranhamente, foi direto ao assunto. Ele normalmente é vago e abstrato a ponto de dar tédio. Mas desconfio que eu não era a sua primeira escolha, e alguém deu um cano no último minuto. Eu respondo muito bem à franqueza. Na época eu estava em péssima forma física. Estava em uma clínica em Lake Tahoe, tendo o sangue trocado diariamente. Entretanto, estava curioso para ver como ele estava, e disse sim. Aí, ele me enviou uma fita cassette das músicas que ele queria tocar com um bilhete: “aprenda estas”, o que, tendo escrito metade delas, achei particularmente ofensivo. Mas fiquei na minha. As pessoas tendem a ficar na delas com relação a Paul por longos períodos, mas chega uma hora em que dizem, “ei, eu não preciso disso”. Então todos chegamos a Nova York para uns ensaios antes do show. Ironicamente, Brian May também estava entre nós, acreditando que incluiríamos algumas músicas do Queen. Suspeito que Paul achou melhor deixar Brian acreditar no que queria, e esperá-lo viajar com seu pessoal e equipamento de Londres a Nova York antes de lhe contar o contrário, ao invés de ser honesto desde o começo. Um tratamento que acho cada vez mais desprezível… A atitude de Paul foi: “Não vou cantar nenhuma porra de música do Queen”. Não surpreendentemente, Brian se irritou, telefonou-me e choramingou por uma hora, como se eu soubesse de qualquer coisa. Então ele voltou para Londres antes do segundo dia de ensaio; grande começo. Durante esses três dias, Paul deu a todos um contrato de quatro páginas, numeradas de 31 a 35. Eu disse a Paul que precisávamos ver as páginas de 1 a 30, ou ele deveria renumerar estas de 1 a 4. A isso se seguiu uma discussão entre a namorada dele e meu representante na Califórnia, uma coisa bem Spinal Tap. O discernimento de Paul nos negócios não rivaliza com suas habilidades como cantor. Mais uma vez, fiquei na minha. Dois carros nos levaram de Manhattan a Woodstock: um para Paul e sua namorada, e outro para o restante de nós. No último trecho, teríamos de ir de helicóptero, o que fizemos, exceto Paul, que pegou a balsa. Alguma coisa com medo de voar… Se nos falávamos, Paul se dirigia a mim como a alguém que ele mal conhecesse. Um dos músicos acompanhantes, talvez? A performance teve seus altos e baixos, e, para minha surpresa, algumas do Bad Company saíram melhores, das quais uma deveria ser escolhida para estar no DVD, mas Paul escolheu uma das piores porque todos os músicos convidados estavam no palco ao mesmo tempo. Em um momento em que ele deveria colocar a qualidade musical como prioridade. Então, eu queria descobrir como ele estava atualmente, e soube. Missão cumprida.

Que sessão de gravação você fez que os fãs provavelmente desconhecem?

Recentemente, após iniciar o selo Mctrax, um sistema de venda de música online que permite ouvir ou baixar música e vídeo (mctrax.com), nosso primeiro contratado é um prodígio de 16 anos, inglês – Tobi. Esse garoto, só digo isso porque ele tem 16 anos, é incrivelmente sofisticado, com uma maturidade além de sua idade, toca guitarra, canta e compõe, e me lembra nomes como John Mayer, Stevie Ray Vaughan, Jimi Hendrix, Robin Thicke, Michael Jackson, Eric Clapton, e terá uma longa carreira. Ele veio ao meu estúdio na Califórnia por três semanas, e nós ficávamos o tempo todo gravando sua voz, sua guitarra e suas músicas, para lançar no meio do ano quando ele voltar para se apresentar na mídia. Tocar com ele, observar como ele descobre coisas novas rapidamente, tão novo, inventivo, indo sempre à frente, ao horizonte, tem sido inspirador. Descubra mais sobre Tobi em mctrax.com

Quais são suas lembranças favoritas dos dois concertos do Free nos festivais da Ilha de Wight, em 1969 e 1970? Na época, que banda fazia o melhor show da Terra?

Melhor show da época… provavelmente The Who. Nunca vi Hendrix ao vivo, que eu adoro, e muitos outros, então só posso escolher entre os que vi. Os festivais da Ilha de Wight foram realmente uma bela experiência. Tão jovem, chegando de helicóptero, não foi apenas uma emoção, mas uma sábia decisão de Chris Blackwell, da Island, para garantir que estaríamos novinhos em folha para subir ao palco. O pandemônio no backstage, os egos e a energia gasta só por estar em um ambiente com 750 mil pessoas podem exaurir uma pessoa antes mesmo de chegar ao palco. Andando do helicóptero em direção ao palco, senti como que a presença de um extraterrestre, e encontrei por acaso Tiny Tim apoiado em uma cerca. Aquele cara estava em algum universo paralelo. O Free teve muita sorte porque o promotor dos festivais, Ricky Farr, tinha um irmão, Gary Farr, que operava o som. Paul e eu tivemos um pouco de tempo em sua casa em Londres, gravando demos de dois canais em seu gravador Revox. Ele fez todos os esforços para nos conseguir um bom som, o que, como você pode imaginar, numa situação em que a cada meia hora vem uma outra banda, é uma missão bem difícil. A energia de 750 mil pessoas lhe atingindo quando você sobe ao palco é como vestir um terno de chumbo. Tocamos talvez 15 minutos, demos tudo de nós, e logo depois estávamos totalmente esgotados.

Quais são suas principais motivações hoje? O que lhe mantém no rumo?

Bom, após ter reconhecido publicamente minha homossexualidade, processo que me paralizou por umas duas décadas, sinto-me como tendo uma nova vida, olhando sempre adiante. Ainda tenho os olhos no horizonte, e não no passado. A ideia de tocar velhas músicas noite após noite soa como a morte para mim, preso num túnel do tempo. Tive tanta sorte em encontrar minha paixão, meios de expressão e modo de viver ainda bem jovem. Já acordo ávido pelo trabalho. Minhas experiências me ensinaram/forçaram a ver o materialismo em outra perspectiva, e me sinto enriquecido. Cada dia é um bônus. Agora, com o selo Mctrax e novos artistas, é como completar um clclo. Estou adorando propiciar a outros a chance que me foi dada por algumas pessoas muito generosas, Alexis Korner entre elas.

Entrevista originalmente publicada na pZ 36, que tinha o FREE como capa

pZ 36

Free, selo Island, Lula Côrtes, Strawberry Path, Anjo Gabriel, Renaissance, Almendra, Love Affair etc.

por Bento Araujo     11 jul 2014

FREE
A pZ passa a limpo a trajetória do FREE, grupo de Paul Rodgers, Paul Kossoff, Andy Fraser e Simon Kirke.
Inclui os álbuns comentados, fotos inéditas e relatos reveladores.

ANDY FRASER
O baixista/compositor do FREE responde as perguntas de nossos leitores, abordando os mais diversos temas e falando das bandas por onde passou – Free, Toby, Sharks, John Mayall’s Bluesbreakers, Alexis Korner, The Rumbledown Band etc.

LULA CÔRTES
O pZ Hero dessa edição, um dos pioneiros da cena psicodélica nordestina, tocou em bandas e projetos como Paêbirú, Satwa, e muitos outros. Suas andanças, seus álbuns solo, sua parceria com Zé Ramalho e Alceu Valença, e muito mais!

BRAZILIAN BITLES

A primeira parte da curiosa trajetória desse lendário agrupamento beat carioca.

SELO ISLAND
A primeira parte de um extenso levantamento sobre o período mais rico de um dos grandes selos independentes dos anos 60 e 70. O que disseram na época e o que temos a dizer hoje sobre trabalhos de grupos como King Crimson, Jethro Tull, Traffic, Quintessence, Fairport Convention, Spooky Tooth, Blodwyn Pig, Bronco, Renaissance, Mott The Hoople, White Noise, Nick Drake, Nirvana e muitos, muitos outros.

Mundo Bolha: Anjo Gabriel, Tomada, os 50 anos da Gibson SG, Aeroblus, Buffalo Springfield, etc.

Capas Históricas: Almendra (Almendra)

Pérolas Escondidas: Strawberry Path, Thee Hypnotics, The Liverbirds, American Gypsy, The Underground Set e Johnny Jenkins.

Have a Nice Day: “Everlasting Love” – The Love Affair

pZ 11 (ESGOTADO)

LSD, Paul Kossoff, Black Sabbath, Sérgio Dias, ELP, Jeronimo etc.

por Bento Araujo     03 Maio 2013

Essa edição da poeira Zine está ácida em todos os sentidos. Temos um especial sobre a influência do LSD no rock dos anos 60 e 70.

Beatles, Hendrix, The Who, Cream, Stones, Byrds, Doors, Grateful Dead, Os Mutantes, Jefferson Airplane, Stooges, Funkadelic, Beach Boys e muitos outros comparecem com suas peripécias lisérgicas. A matéria traz também um Top 20 com as canções mais doidonas e ácidas além de muitas curiosidades sobre a influência desse componente na vida de vários ícones do rock.

Os 30 anos da morte do genial guitarrista do Free, Paul Kossoff. A poeira Zine traz uma matéria de seis páginas falando da trajetória desse guitar hero.

Outro destaque é o especial sobre o Black Sabbath, trazendo todos os altos e baixos da fase Born Again, onde Ian Gillan segurava, com primor, os vocais do grupo.

E Mais: entrevista com Sérgio Dias, Rock & Soul, Ronnie & The Prophets

Capas Históricas: Brain Salad Surgery (EL&P)

Canções que Mudaram o Mundo: Maggie May (Rod Stewart)

Pérola Escondida: Jeronimo