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Songs for a Wailer

Jeff Berlin pretende homenagear Jack Bruce em seu novo disco

por Lucas Lazarotto     11 dez 2015

Berlin e Bruce“Quando Jack morreu, logo pensei em honrar a sua memória com um disco contendo algumas de minhas composições favoritas de sua autoria. Por anos, nos falamos em gravar um álbum juntos, mas o tempo não espera… Gravar músicas de Jack é muito mais que um projeto, será talvez a mais emocionante gravação da minha carreira”, relatou o baixista Jeff Berlin, um dos grandes nomes da cena fusion.

Jeff lançou recentemente uma campanha de financiamento coletivo para viabilizar este seu novo trabalho, Songs for a Wailer, em homenagem ao baixista do Cream. Mas ele faz questão de garantir que não se trata de apenas mais um disco de covers: “Eu arranjei cada canção de Jack com novas e diferentes interpretações, fazendo questão de manter o espírito original das composições. Seu jeito de tocar e compor era assombroso e sempre me impressionou muito. Jack foi o único deus do contrabaixo pra mim”.

Quem desejar adquirir Songs for a Wailer em uma pré venda, basta acessar pledgemusic.com/projects/jeffberlinplaysjackbruce.

Relembrando Jack

O editor da pZ relembra e celebra o seu baixista favorito

por Bento Araujo     25 out 2014

Jack Bruce

Não foi “Sunshine Of Your Love”. Provavelmente o meu primeiro contato com Jack Bruce foi com “I Feel Free”… E foi em vídeo, um promo dos 60, do Cream dublando um de seus primeiros hits. A voz me impressionou, mais ainda aquela linha de baixo.

Foi a porta de entrada. Decidi mergulhar na obra daquele sujeito. Primeiro foi o Cream, supertrio o qual venerei e decorei os álbuns. Sim, Clapton levou a fama, Baker é também um monstro, mas para mim, quem sempre segurou a banda nas costas foi Jack.

Quando o papo é carreira solo dos ex-Cream, aí é covardia. A sequência Songs for a Tailor, Things We Like, Harmony Row, Out of the Storm e How’s Tricks é de outro mundo. Não é somente questão de virtuosismo no baixo, é composição, originalidade e interpretação. O que sempre me deixou perplexo é o quanto a carreira solo dele é subestimada e ignorada, até mesmo dentro do rock.

Mas se o rock nunca deu o merecido reconhecimento a Jack, o jazz deu. Tony Williams, Carla Bley, Billy Cobham e muitos outros admiravam e tocaram com o baixista em algum momento de suas carreiras. “Sou apenas um camponês”, disse Jack ao Jornal da Globo, ao ser perguntado se a fama de Clapton o incomodava. “A história é sempre escrita do ponto de vista dos vencedores”, ele me disse em 2012, quando o entrevistei para a pZ e perguntei a razão dele não ser festejado (em sua fase no Tony Williams Lifetime) um dos pais do fusion, ao lado de Miles e Zappa.

Entrevistar Jack foi tranquilo, conhecê-lo pessoalmente foi mais difícil. Quando ele veio tocar em São Paulo pela primeira e única vez, em 2012, fui apresentado pelo amigo André Christovam, que na verdade foi um dos idealizadores do show, ao lado de outro amigo, Marcel Castro. Levei a edição da pZ em vigor na época, com Jack na capa, contendo um longo artigo que escrevi e a entrevista que havia realizado com ele. Pensei em entregar um exemplar pessoalmente, mas constatei que Jack não pegava nada, nenhum presente, de ninguém. Sua esposa e empresária explicou a posição do marido, que no momento estranhei, mas depois compreendi perfeitamente: já pensou viajar o mundo, aos 70 anos de idade, e ficar carregando cacarecos dados pelos fãs, só pra fazer uma média? Jack Bruce nunca precisou fazer média, talvez por isso seu santo nunca bateu com a indústria fonográfica.

No dia que o conheci, achei Jack já bem debilitado, com a saúde muito frágil. Tudo bem que ele havia acabado de realizar uma intensa apresentação, mas percebi que ele estava com dificuldade de andar e se comunicar. Sua última imagem não sai da cabeça: ele adentrando ao elevador com a esposa, acenando com as mãos, ao mesmo que tentava se equilibrar. Senti uma pontada no peito e constatei que o tempo estava passando rápido.

Naquela noite, sem perceber, fui colocado numa foto curiosa, só com baixistas da pesada. De repente lá estava eu, baixista amador que sou, ao lado de Antonio Pedro de Medeiros (Mutantes), Carlão (A Chave), Willy Verdaguer (Secos & Molhados, Humahuaca etc.), Fábio Zaganin e claro, Mr. Bruce. Que honra! Essa eu devo eternamente ao André Christovam… “Só eu e você gostamos do Things We Like, ele sempre me diz”.

Bento, Antonio Pedro, Carlão, Jack Bruce, Willy Verdaguer e Fabio Zaganin

Hoje eu recebi a notícia da morte de Jack Bruce, e lá se vão mais de dez anos daquele seu fatídico transplante de fígado. Quem leu a sua biografia sabe que o baixista já havia morrido uma vez, mas essa agora parece ser definitiva. Lembrei também de quando escutei pela primeira vez o disco Climbing!, do Mountain, e fiquei estarrecido com uma canção: “Theme For An Imaginary Western”, de autoria do velho Jack. Foi quando percebi o seu valor também como compositor.

Lembranças e mais lembranças, quando o assunto é morte, bate a nostalgia. Mas o que importa é a inspiração desse sujeito e seu eterno legado musical. Jack fez música de verdade.