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O Mundo Perfeito de Billy Gibbons

Perfectamundo é o primeiro disco solo do guitarrista do ZZ Top

por Bento Araujo     27 out 2015

Billy-Gibbons-PerfectamundoO mundo de Billy Gibbons, um dos guitarristas mais influentes do rock norte-americano, sempre foi permeado de carros possantes, mulheres gostosas, alto volume, sacanagem, cerveja gelada e sotaque latino. Tudo isso está em Perfectamundo, seu primeiro disco solo com lançamento previsto para breve.

“Eu aprendi a tocar maracas, timbales, clavas, bongos etc. E tendo vivido no México por alguns anos me fez aprender o suficiente de espanhol para me trazer problemas. Pode parecer uma guinada obtusa, inesperada e bizarra fora do ZZ Top. Mas há algo no meu disco”, relatou o guitarrista para a Classic Rock.

“Treat Her Right” é o nome do primeiro single e do primeiro vídeo de Perfectamundo. Traz o estilo peculiar do guitarrista de mesclar blues com música cubana e mexicana e com a mais alta tecnologia musical disponível.

ZZ TOP: Tres Hombres

Como o ZZ Top deixou de ser uma simples banda caipira para se tornar uma máquina de vender discos?

por Bento Araujo     02 out 2015

zztop“Essa é a nossa grande chance! Vamos tocar tão bem que as pessoas irão esquecer que a onda glitter aconteceu”

Quem disse isso foi o baixista Dusty Hill, numa entrevista para a Rolling Stone americana, em 1974.

Dusty e seus comparsas estavam animados, pois pela primeira vez o ZZ Top iria excursionar como banda principal e lançava um álbum que levava o som da banda além das fronteiras do Sul e do Texas… Tres Hombres, terceiro registro do grupo, foi lançado em 1973, e a partir de então o trio texano passou a ser respeitado por toda a América… Como o ZZ Top deixou de ser uma simples banda caipira para se tornar uma máquina de vender discos? A resposta você encontra a seguir…

O ZZ Top nessa altura fornecia aos garotos do Sul exatamente o que eles queriam ouvir, uma espécie de boogie destemido, daquele tipo que faz você (por puro tesão) ter vontade de atirar uma garrafa contra a tela de arame que protege o grupo, uma característica típica dos palcos mais imundos das juke joints sulistas, nessa época o autêntico lar do trio. Com tanta repercussão local a coisa toda começou a subir e chegar também ao norte dos EUA, em cidades como Chicago, Detroit e Nova York. Segundo a matéria da Rolling Stone, de junho de 1974, eles já eram a banda mais popular da Dixieland desde os Allman Brothers, tudo isso graças ao lançamento de um compacto chamado “La Grange” e a um mega concerto num estádio em Houston, onde encabeçaram um festival com nomes como Savoy Brown, Wishbone Ash e Doobie Brothers. Em Atlanta, as últimas três aparições do grupo tinham sido realizadas em arenas com ingressos esgotados, e em New Orleans, o promotor local garantiu que teria lotado o mesmo galpão onde a banda se apresentou por pelo menos mais cinco noites consecutivas, caso tivesse arriscado.

Segundo o produtor/mentor Bill Ham, esse tipo de repercussão local não aconteceu por acidente: “Logo que começamos, passamos a fazer centenas de shows por ano, todos no Texas e região… Tocamos tanto que o boca a boca foi se espalhando e levando adiante a reputação do grupo… E é dessa mesma maneira que começamos a chegar ao Norte do país”.
Se referindo a onda glitter/glam que assolou o mundo no início dos anos 70, Dusty Hill costumava confessar que o máximo que tinha se aproximado dessa estética foi quando tocava no grupo American Blues, antes do ZZ Top existir: “Achamos de bom gosto pintar o nosso cabelo todo de azul naquela época áurea da psicodelia… Claro que não funcionou, e com aquele cabelo, o que a gente mais arrumava era briga e confusão”.

Deixando um pouco isso de lado, o ZZ Top começou a trilhar o caminho do sucesso bem cedo, mas um sucesso bem estruturado, não aquele que acontece do dia para a noite e pega todo mundo de surpresa. A primeira fagulha desse sucesso veio com o contrato da London Records: “Desde sempre eu costumava ouvir os discos dos Rolling Stones e meu sonho era que a minha própria banda também lançasse seus álbuns por aquela estampa”, disse Billy Gibbons numa certa ocasião…

Logo, o seu ZZ Top lançava sua estreia em 1971, sob o apropriado nome de First Album. Depois de muitos shows pelo Sul, em 1972 pintou outro grande trabalho, Rio Grande Mud, mas tudo se limitava a um modesto sucesso local… Para o restante do país eles não passavam de um “Southern Grand Funk”, como as revistas especializadas da época diziam.
1973 foi o ano da virada para os caipiras…

“Apesar de desovar dois incríveis albinos do rock e blues e a primeira dama do boogie, o Texas está se tornando um baita de um lugar para você sair por aí dizendo que sua banda é de lá. O rock sulista está pegando tão rápido como um gole de licor de batata chegando ao seu cérebro”. Foi assim que o jornalista Steve Apple começou sua resenha de Tres Hombres na Rolling Stone de 13 de setembro de 1973. Mais adiante em seu texto ele resume a pegada da banda naquela altura dos acontecimentos: “Esses caras eram cowboys psicodélicos que agora não escondem mais o prazer de cuspir cerveja e sair dirigindo seus carros e suas motos à muitas milhas por hora. Eles parecem ser o power trio mais inventivo da atualidade e são apenas umas das muitas bandas competentes que emergiram do Sul recentemente”.

A sorte grande de Billy Gibbons, Dusty Hill e Frank Beard começou a dar as caras na virada de 1972 para 1973. Tudo começou quando os Stones aceitaram fazer três concertos no Havaí, um numa noite de sexta feira e outros dois num sábado, sendo um deles uma matinê. Quando esses shows foram anunciados, simplesmente todas as bandas do planeta ficaram atiçadas, pois abrir tais apresentações seria então o melhor cartão de visita para um grupo aspirante. É aí que entra a palavra de Mick Jagger, que havia ouvido e apreciado o primeiro disco do ZZ Top (First Album). Bastou para Bill Ham receber o convite via telefone e na sequência comunicar os rapazes, avisando-os que era só pegar o protetor solar, a sunga, os instrumentos e partir para Honolulu. Detalhe: sunga e protetor eles não levaram, mas sim botas, chapéus e ternos de cowboy, como relembrou Billy Gibbons: “Lembro de subir no palco com a minha tradicional roupa de cowboy e alguém da primeira fileira gritou: ‘Meu Deus, eles são uma banda country!’ Claro que esse nosso estilo estava muito longe de ser moda ou cool naqueles tempos, então a gente sabia desde o início que teríamos que fazer com que as pessoas abandonassem esse preconceito, e resolvemos fazer isso através de nossa música e performance. Sim, parecia que a gente havia caído de algum vagão de carga de um trem, mas estávamos ali para entreter”.

Apesar da excitação dos jovens texanos, o baixista Dusty Hill tinha algumas reservas a respeito dessas gigs pelo Havaí: “Um pouco antes disso, quem estava abrindo os shows dos Stones pelo país era o Stevie Wonder, e a gente ficou sabendo que numa noite ele chegou a ser vaiado pelos fãs dos Stones. Então eu estava me cagando de medo… Pra piorar as coisas, quando entramos no palco com nossas tradicionais roupas de cowboy, o silêncio foi mortal. Era possível ouvir uma gota caindo no chão…”. Apesar da pressão, os shows ocorreram da melhor forma possível, com a banda sendo ovacionada e obrigada a voltar para uma encore nas três apresentações, além de contar com o luxo de ter os Stones assistindo a cada apresentação ali da parte lateral do palco. As publicações da época noticiaram o fato e essa repercussão foi o primeiro grande passo do ZZ Top rumo ao estrelato. Além disso tudo, a banda ainda arrumou tempo para curtir um tempo livre com seus ídolos: “Tenho ótimas lembranças desses shows, como encontrar com Charlie Watts no bar e passar o restante da noite batendo papo com ele”, recordou Hill. Gibbons também sempre se empolga ao falar do assunto: “Passamos alguns dias curtindo com eles no Havaí… Fomos à praia e bebemos bastante juntos. Keith estava vivendo a todo o gás seu rock n’ roll lifestyle…”.

Tres Hombres foi gravado no Robin Hood Brian Studio, no Texas, assim como os dois primeiros discos do grupo. No entanto, para a mixagem, o trio resolveu ir além, partindo para trabalhar no conceituado Ardent Studio, localizado em Memphis. Isso bastou para colocar o ZZ Top num outro patamar em termos fonográficos, já que Memphis é um dos berços da música norte americana, cidade de Elvis, B.B. King, Howlin’ Wolf, Jerry Lee Lewis e Otis Redding, entre outros. Além do Ardent, a cidade contava também com o Sun Studio, de Sam Phillips, e a Stax; o que levava a crer que aquele era mesmo “o” local para se finalizar um álbum. O ZZ Top tomou simpatia pela cidade quando foi escalado para se apresentar num festival local de blues. O promotor do evento havia ouvido os dois primeiros álbuns e teve certeza que o grupo era formado por músicos negros. Esse mal entendido fez com que o conjunto fosse o único formado por brancos a se apresentar no cast do evento… Mesmo assim, tudo correu perfeitamente bem e novamente a banda foi ovacionada. Após o final de sua apresentação, músicos locais vieram conversar com os texanos, elogiando seu show e principalmente seus álbuns. No meio do papo alguém soltou: “Por que vocês não vem gravar aqui em Memphis?”. A banda havia acabado de gravar Tres Hombres no Texas e Billy explicou isso ao local, que retrucou: “Já que o disco está gravado, você considerou o fato de pelo menos vir mixá-lo aqui?

Nós temos um estúdio chamado Ardent, que conta com um staff muito talentoso em termos de engenharia de som. Só pra você ter uma ideia, o Led Zeppelin andou gravando por lá”. Bastou para a banda iniciar uma verdadeira paixão pela música de Memphis e também pelo Ardent, já que foi ali que gravaram pelos próximos 20 anos de suas carreiras, geralmente contando com os talentos do engenheiro de som Terry Manning, que trabalhava também com o Zeppelin.

Esse “tapa” final realizado no Ardent, somado às gravações em casa, fez de Tres Hombres talvez o álbum preferido entre nove de cada dez fãs da banda: “Tres Hombres foi o nosso primeiro disco de platina e continua imponente até hoje. Foi o disco que nos apresentou ao mundo e continua o favorito entre os fãs e até mesmo entre a gente. Uma das razões desse fenômeno é o fato desse álbum conter o nosso primeiro hit, ‘La Grange’”, admite Gibbons.

“La Grange”, um dos mais temíveis boogies da história, teve início durante as viagens de Billy Gibbons por todo o selvagem território texano durante seus primeiros dias de ZZ Top e até mesmo de Moving Sidewalks e The Coachmen, suas antigas bandas. Billy parava em todo buraco beira de estrada: bares, restaurantes e bordéis. “La Grange” nada mais era do que um desses bordéis, cujo verdadeiro nome era “Gracie’s Chicken Farm”, anos depois imortalizado inclusive no filme The Best Little Whorehouse In Texas, com Dolly Parton e Burt Reynolds.

Billy Gibbons gravou “La Grange” com duas de suas guitarras favoritas, sua famosa “Pearly Gates” (uma Les Paul) e uma Stratocaster de 1955, plugadas num Marshall de 100 watts. O rock estava entrando na era dos overdubs, então isso deu a possibilidade de Gibbons trabalhar um de seus mais pessoais temas com duas de suas guitarras favoritas. O segundo solo de “La Grange” inclusive entrou para a história por ser o primeiro do grupo a trazer os tradicionais “harmônicos” de Gibbons, uma técnica que consiste em tocar as cordas com os dedos junto da palhetada, que se tornou a marca registrada do guitarrista através dos anos.

Com “La Grange” escalando rapidamente as paradas, boatos começaram a pintar por todo lado… O principal deles dava conta que o Canned Heat estaria movendo um processo contra o ZZ Top, tudo porque “La Grange” tinha exatamente o mesmo riff de “Fried Hockey Boogie”. Segundo os texanos isso não passava de besteira, já que os Stones haviam gravado o mesmo riff em “Shake Your Hips” (um original de Slim Harpo), então o Canned Heat estava de gaiato na história…

Tres Hombres possui um repertório arrasador, certamente uma rígida estrutura de canções para qualquer show de respeito do trio. A abertura acontece com uma dobradinha arrepiante: “Waitin’ For The Bus” e “Jesus Just Left Chicago”, que até hoje o grupo sequer ousa em apresentá-las separadamente. “Beer Drinkers & Hellraisers” é hino do rock sulista e chegou até a ser coverizada pelo Motorhead e pelo Van Halen. Na caliente “Shiek”, o ácido que Gibbons tomava em seus anos psicodélicos pré ZZ Top volta a bater em forma de wah wah’s envolventes, com ele inclusive citando o Rio de Janeiro na letra. Slides flamejantes também acontecem em “Master Of Sparks”. “Hot, Blue and Righteous” é uma das melhores baladas do trio, que inclusive certamente influenciou outra excelente balada, “Purple Rain”, do Prince. “Move Me On Down The Line” e “Have You Heard?” são também excelentes temas que completam esse impecável album.

Com o nome do grupo sendo comentado por todo canto, o trio não tinha outra alternativa a não excursionar de forma selvagem por todo o sul dos EUA, e também pelo norte e leste, dormindo em ônibus ou até mesmo no chão das casas de amigos pelo itinerário. O importante era se apresentar, onde quer que fosse… Numa cidade minúscula no interior do estado de Michigan, eles tiveram três dias de folga, no entanto, o local contava apenas com um único cinema; a vida noturna local era zero… Dusty Hill chegou a perguntar para alguém na rua o que havia de interessante para se fazer na cidade e o sujeito respondeu: “Nada de interessante… Apenas o ZZ Top, que se apresenta por aqui daqui há dois dias!”

Em algumas ocasiões a banda abria para grandes nomes como Uriah Heep, Alice Cooper e Mott The Hoople; em outras, se metiam em completas roubadas, como a que aconteceu na remota Lubbock, interior do Texas. A banda se hospedou numa espelunca defronte ao local do show. O equipamento não chegou a tempo, então o show deve que ser cancelado… Sem grana para pagar o hotel, o jeito foi fugir pela janela! Mesmo com uma canção nas paradas de sucesso, a banda ainda passava por esse tipo de situação, coisas do rock n’ roll…

Essa era a proposta do empresário Bill Ham, fazer do ZZ Top uma banda popular, tocando para o povo a preços extremamente atraentes, segundo o próprio: “É mais difícil desta forma, e leva mais tempo também, porém, quando um grupo adquire a fama de ser um representante do povo, essas pessoas nunca mais irão te abandonar”. Ham inclusive fez depois uma declaração na Rolling Stone usando um discurso muito similar ao mesmo usado pelo então presidente Jimmy Carter em seu discurso presidencial: “Esse será o ano em que daremos a música deste país de volta às pessoas deste país”. Essa atitude de Ham mostrou resultado nas vendas de Tres Hombres, mais especificamente no formato dessas vendas, já que a gravadora London comunicou à imprensa que as vendas do disco mais recente do ZZ Top aconteciam em sua maioria em fitas K7 e cartuchos de oito pistas.

“O maior elogio que eu recebi em minha vida aconteceu na Carolina do Sul, quando um sujeito chegou dizendo: ‘Hey cara, eu curti pacas a sua fita! Eu e a minha garota nos divertimos pra valer no banco de trás do nosso carro com a sua fita!’. Ele não disse ‘disco’ ou ‘LP’, ele disse ‘fita’. Para mim é uma grande honra dizer que o ZZ Top é uma banda de fitas… É demais chegar em cada praia e ouvir o nosso som vindo dos carros e dos trailers, a gente é uma banda para se ouvir na estrada”, relatou Gibbons ainda em 1974.

Essa reputação com o povo fez com que o ZZ Top fosse praticamente execrado pela crítica nos anos 70. Algo que certamente mudou na década seguinte, quando as guitarras sintetizadas tomaram conta do som do grupo e eles viraram queridinhos da MTV e dos yuppies… Em 1974 a crítica não engolia o grupo, nem mesmo o fazia caras batutas como Lester Bangs. Isso levou a banda a ter uma atitude de “não ter tempo para atender a imprensa”; se os jornalistas não curtiram o disco e muito menos o show, não era pessoalmente que o grupo iria virar a mesa. Depois de um tempo eles cederam e passaram a atender jornalistas, porém com um aviso: “Nós não acreditamos em gravadores de fitas, então a entrevista não poderá ser gravada”. O grupo não queria ser mal interpretado nas transcrições dos jornalistas, no entanto, se o grupo sofria com as interpretações de certos repórteres que usavam fitas pré gravadas, o que dizer de algo que o jornalista teria que passar para o papel baseado na memória de um papo que tinha tido com a banda? O Spinal Tap teria adorado essa…

O figurino durante as apresentações continuava mais único do que nunca. O trio fazia questão de exaltar uma postura provinciana perante aos grandes centros comerciais do país. Subiam ao palco com “Nudie Suits”, os mesmos ternos caipiras e cafonas confeccionados pelo famoso alfaiate e usados por Gram Parsons e o pessoal dos Flying Burrito Brothes. Segundo Gibbons, “Esse visual era legal pois era bem fora de moda naquela época, até que John Travolta trouxe aquilo tudo de volta com seu filme Urban Cowboy… Tudo aquilo virou moda novamente, mas de uma maneira vulgar… Foi quando abandonamos esse visual, no final dos anos 70 e começo de 80”.

Assim o destemido ZZ Top continuou na estrada pelo ano de 1974, o que ajudou Tres Hombres a ser um dos discos mais vendidos daquele ano nos EUA. Num gigantesco estádio de Austin, Texas, o grupo organizou o famoso “ZZ Top’s First Annual Texas-Size Rompin’ Stompin’ Barndance and Barb-B-Q”, que contou com convidados como Santana, Joe Cocker e Bad Company. As 80 mil pessoas presentes louvaram o fato do trio local ser a banda principal da noite, tocando depois desses outros nomes consagrados do rock. O “orgulho texano” jogava em favor dos rapazes, como seria tradição dali por diante…

Artigo originalmente publicado na pZ 30

Os Melhores Discos do ZZ TOP

A mistura infalível de boogie sacana, belas mulheres, tequila e carrões turbinados vem agradando muitas gerações de fãs espalhados por todos os cantos do planeta.

por Bento Araujo     08 jan 2015

ZZ Top

Seria o ZZ TOP uma das bandas mais divertidas da história do rock? Certamente! A mistura infalível de boogie sacana, belas mulheres, tequila e carrões turbinados vem agradando muitas gerações de fãs espalhados por todos os cantos do planeta.

Formado em Houston, Texas, em 1970, o ZZ TOP surgiu da junção de dois grupos psicodélicos: o Moving Sidewalks e o American Blues. O primeiro chegou até a ser elogiado por Jimi Hendrix, que presenteou o líder da banda com uma guitarra de sua coleção particular. O felizardo era Billy Gibbons, talvez o guitarrista de blues que melhor trabalharia no idioma do hard rock durante as próximas décadas.

Gibbons deu sorte de trombar nas estradas do Texas com uma cozinha robusta e sempre competente: Dusty Hill e Frank Beard.

Baseados no nome do mestre B.B. King, o trio criou o nome ZZ TOP e fez sua primeira apresentação em fevereiro de 1970, logo partindo para uma tour local, abrindo os shows de lendas do blues como Muddy Waters, Howlin’ Wolf e Lightnin’ Hopkins.

Depois desse batismo de fogo, o grupo sempre fez questão de trilhar uma estrada de muito sucesso. Há mais de quatro décadas o ZZ TOP leva um pequeno gostinho do Texas pro mundo.


First Album (1971)

A estreia do ZZ TOP continua tão bacana depois de todos esses anos simplesmente pelo fato de ser o retrato mais fiel das origens do grupo; aqui você se depara com gírias texanas, guitarras embebidas de fuzz, piadas sujas e pitadas da essência do blues.

Honesto e espontâneo até a medula, First Album soa robusto para o fã mais hardcore do trio. Já com o grande público o papo é diferente, pois a estreia da banda talvez seja o único disco que não trazia nenhum hit de sucesso, mas sim temas poderosos, como “Brown Sugar”, “Neighbor, Neighbor”, “Goin’ Down To Mexico”; a bela balada “Old Man” e o blues certeiro de “Just Got Back From Baby’s” e “Certified Blues”.

First Album serviu também para apresentar um jovem novo ídolo da guitarra norte-americana, Mr. Billy Gibbons.

Rio Grande Mud (1972)
O segundo álbum da banda pode ser encarado como clássico absoluto do southern rock; não é a toa que caras como Warren Haynes e Rickey Medlocke veneram tal bolacha até hoje.

Um pouco mais confiante e agressivo do que na estreia, o trio atacava novamente, sempre apostando numa receita infalível que mesclava uma espécie de “chauvinismo confederado” com uma bela queda pelos atraentes costumes dos vizinhos latinos ali do outro lado da fronteira.

Rio Grande é na verdade o rio que divide o Texas do México, então nada mais natural do que a banda se lavar com a sagrada lama de tal afluente.

Musicalmente, o destaque vai para dois temas cantados pelo baixista Dusty Hill; “Francine” e “Chevrolet”; para a pegada de sons como “Just Got Paid” e “Down Brownie” e para a tocante balada “Sure Got Cold After the Rain Fell”.


Tres Hombres (1973)

Toda a excelência da música do ZZ TOP está gloriosamente contida em Tres Hombres, o terceiro álbum da banda texana. As mudanças começaram cedo naquele ano de 1973, com o trio roubando o show dos Stones em Honolulu, no Havaí.

Para o próximo disco de estúdio mudanças eram feitas: pela primeira vez decidiram gravar no Ardent Studios, localizado em Memphis, onde o produtor e fiel escudeiro, Bill Ham, contou com a ajuda do engenheiro Terry Manning. O resultado foi um álbum certeiro e direto; irretocável, o melhor da banda e que até hoje é quase unanimidade entre os fãs.

Nas paradas o álbum foi puxado pelo magnífico boogie “La Grange”, uma homenagem a um lendário puteiro visitado por Gibbons nos primeiros dias do grupo, o Gracie’s Chicken Farm.

A abertura rolava com dois números arrepiantes: “Waitin’ for the Bus” e “Jesus Just Left Chicago”, que abriam o caminho para um verdadeiro hino do rock sulista: “Beer Drinkers and Hell Raisers”, canção executada também por grupos como o Motörhead e o Van Halen. O background psicodélico de Gibbons floresce novamente nos wah wah’s de “Shiek”, onde ele cita até a cidade do Rio de Janeiro; “Master of Sparks” também tem slides psicodélicos e “Hot, Blue and Righteous” é uma das melhores baladas da banda registrada em disco. De quebra, Tres Hombres trazia ainda a canção “Move Me on Down the Line”, um autêntico hino do rock festeiro, regado a cerveja e garotas gostosas.

Assim como as vendas, o público nos shows crescia absurdamente. Num gigantesco estádio de Austin, TX, fizeram o famoso “ZZ Top’s First Annual Texas-Size Rompin’ Stompin’ Barndance and Bar-B-Q”, contando com o apoio de Santana, Joe Cocker e Bad Company.

Atenção: foi só em 2006 que Tres Hombres recebeu uma digna reedição em formato digital. As edições anteriores do CD não traziam o mix original de 1973. O mesmo aconteceu com o álbum Fandango!.

Fandango! (1975)
Foi com este álbum que o trio texano se estabeleceu na América como uma das maiores forças do rock e do boogie, vendendo sem muito esforço, um milhão de cópias.

Tres Hombres tinha apresentado a banda ao grande público, no entanto foi com este álbum, metade ao vivo e metade registrado em estúdio, que as duas facetas do ZZ Top ficaram escancaradas aos olhos e ouvidos do pessoal.

Começando ao vivo, todo o suor e dedicação do trio fora captado pelas mãos do produtor Bill Ham, que garantiu nas liner notes do álbum: “Essa música está sendo trazida até você da forma mais honesta possível, sem qualquer assistência de truques ou maquiagens feitas em estúdio”.

O massacre começava com “Thunderbird” e “Jailhouse Rock”; e terminava com um medley de tirar o fôlego.

A parte de estúdio é irretocável, trazendo seis clássicos absolutos do cancioneiro do grupo, algo que como um terceiro lado extra de Tres Hombres, com destaque para o lamento de “Blue Jean Blues”, a sacanagem de “Mexican Backbird”, o groove de “Nasty Dogs and Funky Kings” e “Heard It on the X” e o boogie em estado bruto do mega-hit “Tush”.

Numa época em que álbuns ao vivo eram nada mais do que um greatest hits caça-níquel, o ZZ TOP dava um passo inusitado, apostando em novas composições e na energia inigualável de suas apresentações ao vivo.

Tejas (1976)
No começo de 1976 o ZZ TOP alugou uma espelunca e a transformou em estúdio, onde passaram três meses ensaiando cerca de dez horas por dia! O resultado de tanta dedicação nesse crucial período de pré-produção está neste álbum, mais um clássico da extensa discografia do trio.

Tejas ganha pontos ao mesclar o velho e tradicional boogie (“Arrested For Driving While Blind”) com sensibilidade acústica de arrepiar (“Asleep in the Desert”). A diversidade não termina por aí; “Snappy Kakkie” é um disco-reggae (como definiu o batera Frank Beard); “It’s Only Love” é festa pura como reza a cartilha dos Stones e “El Diablo” parece ter sido cunhada pelo próprio cramulhão, devido a sua levada assombrosa.

Tejas serviu também como pano de fundo para uma das maiores e mais perversas tours da história do rock, a Worldwide Texas Tour, onde o ZZ TOP rodou o país de costa a costa, literalmente levando a cultura texana para o palco; com muitas cobras, búfalos, lobos, porcos e “vegetação” natural do deserto. Os pobrezinhos dos animais acabaram sofrendo demais com o volume do trio no palco e alguns acabaram até morrendo no meio da tour. Certamente o Greenpeace e as sociedades protetoras dos animais passaram a odiar o ZZ TOP.

Deguello (1979)
Depois do sucesso do álbum Tejas e da auto-indulgente tour que se seguiu, o ZZ TOP praticamente encerrou suas atividades, extra-oficialmente falando. Cada integrante tirou férias do outro e somente três anos depois que eles voltariam a trabalhar juntos, e em casa nova, já que a poderosa Warner comprou o passe do pessoal. Sempre é bom lembrar também que, na década de 70, geralmente os grupos lançavam pelo menos um álbum por ano.

Foi durante as férias que Gibbons e Beard deixaram crescer espantosamente suas barbas, enquanto que Beard mantinha apenas um discreto bigode (justamente o sujeito que tinha o sobrenome “Beard”, ou seja, “barba”). Mais um ponto a favor da banda, um visual único e divertido.

Depois de uma simples ouvida neste álbum de 1979 dá pra sacar que as merecidas férias fizeram muito bem aos rapazes. Apostando num som mais moderno, cristalino e até mesmo minimalista, o ZZ TOP gravou um excelente trabalho, mesclando magistralmente blues, R&B, rock dos anos 50 e funk.

Temos aqui uma versão de “Dust My Broom” de Elmore James; ainda na estrada do blues Gibbons cunhou também uma pérola: “A Fool for Your Stockings”. No lado mais funkeado da coisa, (lembrem-se, em 1979, o som da onda era o de grupos como o Chic) o ZZ TOP também se deu maravilhosamente bem, com os grooves matadores de “I’m Bad, I’m Nationwide”, “Cheap Sunglasses”, “Lowdown in the Street” e a versão de “I Thank You” do mestre do soul, Isaac Hayes.

Uma outra novidade era a formação do “The Lone Wolf Horns”, nada menos que o próprio trio atacando num naipe de metais. Esse molho especial pode ser conferido nos autênticos rocks de “She Loves My Automobile” e “Hi Fi Mama”. Nas letras, o senso de humor dominava tudo, e até musicalmente a banda parecia brincar com a cara do ouvinte, como fica evidente na ‘torta’ “Manic Mechanic”. Vai fundo!

http://youtu.be/oT6NF718fP4

Eliminator (1983)
A chegada dos anos 80 mexeu demasiadamente com toda a cena do rock n’ roll. A sensação era um bocado desconfortável para alguns mais conservadores; quem não se adaptasse a nova década certamente estaria fadado ao fracasso.

O ZZ TOP se recusou a ficar parado no tempo e traçou para a então nova década uma drástica mudança, reinventando tanto o seu som como sua imagem. O resultado foi um dos álbuns mais vendidos da história do rock.

Sintetizadores e efeitos eletrônicos já apareceram, porém até que timidamente, no álbum anterior (El Loco, de 1981), mas em Eliminator a coisa toda tomou forma de vez. O mais bem sucedido álbum da carreira do trio trazia um som único e perfeitamente adequado aos anos 80; mais dançante e menos calcado no blues.

O eletro-boogie da banda caiu como uma luva para a MTV, ainda uma novidade na América, que elevou às alturas a sua audiência exibindo massivamente os clips de “Gimme All Your Lovin'”, “Legs” e “Sharp Dressed Man”. Eliminator era mais do que um simples disco de rock, era um autêntico fenômeno de mídia.

Com Eliminator entrava em cena também o mais impactante ícone visual do grupo, um cherry-red Ford Coupe de 1933, totalmente turbinado.

Mais ZZ Top:

Para quem quiser uma boa e luxuosa compilação da longínqua carreira do ZZ TOP, o item mais saboroso é sem dúvida a caixa de quatro CDs: Chrome, Smoke & BBQ, lançada em 2003.

A jornada da banda para o lado mais tecnológico da coisa começou timidamente em El Loco, disco de 1981 que trazia também o hit “Leila”.

No auge dos dólares e da fama a banda lançou Afterburner, em 1985, outro sucesso arrebatador, com destaque para a balada “Rough Boy”.

Somente cinco anos depois o trio voltava a lançar um disco; Recycler saiu em 1990 e foi sucesso no velho continente, principalmente na Inglaterra.

Durante a década de 90 o número de lançamentos não aumentou muito, com a criatividade do pessoal infelizmente dando uma estagnada. Desse período são os discos: Antenna (1994), Rhythmeen (1996) e XXX (1999).

No novo século o trio lançou dois discos bacanas, Mescalero (2003), e La Futura (2012), além de um CD/DVD ao vivo: Live From Texas.

Outro item recomendado para quem aprecia a fase mais blues e genuína do grupo é a coletânea One Foot in the Blues, lançada em 1994.