The Spencer Davis Group

Em 1965 o grupo era um dos nomes mais impactantes e respeitáveis da noite londrina

por Bento Araujo     23 set 2014

Quando a cena mod se encontrava mais efervescente do que nunca na Inglaterra da metade dos anos 1960, as ruas de Londres eram tomadas por músicos e jovens que visitavam os clubes noturnos em busca de boa música e diversão. Os club-goers, como eram chamados pela imprensa da época, eram exigentes e sabiam perfeitamente distinguir um grupo musical picareta, do tipo que estava caindo de paraquedas naquela onda somente para faturar alguns pounds e garotas. Conquistar a confiança de club-goers, de companheiros de profissão e de jornalistas era algo para poucos. Spencer Davis, um ex-professor que falava quatro línguas, um garoto de 16 anos de idade chamado Steve Winwood, seu irmão Muff Winwood e Peter York formavam um combo atípico, The Spencer Davis Group, que, em 1965, era um dos nomes mais impactantes e respeitáveis da noite londrina.

Spencer Davis Group

Eram felizes e dedicados; definiam-se como “a última banda R&B da Inglaterra”. Steve, o menino prodígio do rock inglês, declarou na época: “Existem muitos grupos bons de R&B por aí, porém não muitos deles estão tentando alcançar as paradas de sucesso”. O termo R&B não agradava aos rapazes, que preferiam dizer que a intrigante e empolgante música que praticavam poderia, sem problema algum, ser chamada de “pop negro”. A voz encorpada de Steve era puramente negra, uma dádiva para um franzino garoto inglês ruivo, ainda ostentando espinhas pelo rosto. Alcançar as paradas, como mencionou, era sua prioridade. Enquanto Davies queria comprar uma casa, Steve queria apenas um Hammond, para colocar em prática seu talento e demonstrar sua paixão por caras como Jimmy Smith.

O SDG foi descoberto por Chris Blackwell, do selo Island, em 1964. Incapaz de dedicar muita atenção ao grupo, devido aos seus compromissos, Blackwell se tornou publisher e produtor da banda, que assinou com a Fontana, uma subsidiária da Phillips. Em abril de 1964, pintou o primeiro compacto, “Dimples”, cover de John Lee Hooker. Depois de mais dois compactos, estava provado que a voz de Steve Winwood tinha pouquíssimos similares no Reino Unido. Steve Marriott era um deles. Sendo Steve o músico que mais chamava atenção no SDG, uma dúvida rondava o grupo. Por que atendiam pelo nome de “Spencer Davis Group” e não “Steve Winwood Group”? Quem explicou foi o baixista Muff, irmão mais velho de Steve: “Spencer é o único que gosta de dar entrevistas, portanto eu sugeri que o grupo carregasse o seu nome, daí podemos continuar na cama enquanto ele atende à imprensa”. Outro ponto importante: Steve era ainda menor de idade e poderia ser banido da maioria dos clubes e casas noturnas se alguém descobrisse. Além disso, seria muito mais difícil vender o show do “Steve Winwood Group”, cujo líder era um garoto de 16 anos. Que promotor iria se arriscar?

O primeiro LP veio com o nome nada imaginativo de Their First Album. Hoje, o R&B branco do disco pode soar leve demais até para os parâmetros de 1965. A voz de Steve é uma revelação, mas parte do material soa datado e não tão certeiro. Foi de Blackwell, porém, a grande sacada da bolacha. Colocar sua Millie Small, aquela de “My Boy Lollipop” – o primeiro arrasa quarteirão do selo Island – em dueto com Steve Winwood na versão de “I’m Blue”, popular com as Ikettes. O irresistível tempero ska e rock steady, marca registrada de Blackwell, estava presente e ganhava ainda mais força com o teor blue-eyed soul do SDG. Se nas paradas o efeito não havia ainda surtido, o respeito na cena era total. O SDG tornava-se então a banda que os músicos iam assistir. E todos eles, sem exceção (Clapton incluso), se emocionavam com as interpretações de Winwood para “Drown In My Own Tears” e “Georgia On My Mind”. Era como se Ray Charles tivesse nascido à margem do Tâmisa. A coroação definitiva veio no National Jazz & Blues Festival, em Richmond, onde o SDG tocou na última noite. Na jam de encerramento, Steve voltou ao palco para cantar ao lado de alguns de seus mais ilustres admiradores: Eric Burdon, Long John Baldry e Rod Stewart. Foi aí que os Rolling Stones convidaram o SDG para abrir uma excursão de 24 datas pelo Reino Unido. Terminada a turnê, os Stones foram para a Austrália, mas fizeram questão de emprestar sua limusine e seu motorista particular ao SDG.

Steve Winwood quis esclarecer tudo em uma entrevista dada ao NME, tentando conter aquela euforia toda pra cima de sua voz “negra”: “Nenhum cantor branco consegue captar o sentimento e a alma de um cantor negro. Essa música pertence a eles. Fico embaraçado quando alguém me diz que sou capaz de colocar Wilson Pickett pra correr. Você pode dar muito duro, não importa: você nunca vai cantar o blues como um negro. Eles estão cantando sobre a própria vida”.

O singer-songwriter jamaicano Jackie Edwards era um desses sujeitos que cantavam sobre a própria vida. Estava em Londres, onde escrevia hits para a Island de Chris Blackwell. Um desses veio em novembro de 1965, “Keep On Running”, lançada pelo SDG. Em janeiro de 1966, o compacto com a canção estava no primeiro posto da parada britânica, desbancando nada menos que um compacto dos Beatles, “We Can Work It Out” / Day Tripper”.

Era a glória para os mods; afinal de contas, “Keep On Running” parecia um original registrado diretamente nos estúdios do Sul dos EUA, como Stax, Muscle Shoals ou Fame. O baixo forte de Muff vinha embebido nas linhas de Donald “Duck” Dunn, o fuzz de guitarra de Davis era cativante e a voz de Steve Winwood era puro soul. Jackie Edwards continuou escrevendo outros compactos de sucesso para o SDG, como “Somebody Help Me” e “When I Come Home”.

O SDG seguia então na crista da onda, lançando compactos também nos EUA, participando de filmes (como The Ghost Goes Gear, onde tocam de pijamas a fantástica “Nobody Knows You When You’re Down And Out”) e lançando exclusividades para o mercado alemão, como versões pessoais para as tradicionais “Det war in Schöneberg, im Monat Mai” e “Mädel ruck ruck ruck an meine grüne Seite”. Spencer Davis era muito respeitado na Alemanha. Havia estudado na Universidade de Berlim e dominava a língua germânica com destreza e fluência.

Outros dois LPs de estúdio se seguiram: Their Second Album e Autumn ’66, trazendo covers de clássicos soul, blues e jazz. Nos compactos, no entanto, o SDG tinha confiança suficiente para lançar seus próprios temas no lado A. Ela aumentou ainda mais em novembro de 1966, quando “Gimme Some Lovin’” chegou às paradas britânicas. Só não bateu no topo porque “Good Vibrations”, dos Beach Boys, de lá não arredou pé. Na América, o compacto também mordeu as paradas, criando uma reputação para o quarteto por aqueles lados. A produção da faixa deu o que falar por lá, cortesia de Jimmy Miller.

Falando ainda na relação entre o material contido nos elepês versus o contido nos compactos, a discussão vai longe. Alguns alegam que qualquer compilação de singles do SDG representa melhor o que foi o grupo, já que seus LPs geralmente não continham os hits, mas, sem dúvida, ostentam algum charme, como ressaltou o semanário Disc & Music Echo na resenha do álbum Autumn ‘66: “O grupo certamente evoluiu musicalmente, transformando-se num dos mais competentes e suaves da cena britânica. Ouça se for capaz a beleza dessas faixas. Eu só desejo que as pessoas não pensem que é necessário um LP ter a obrigação de conter os singles de sucesso”.

A versão original britânica de Autumn ’66 não contém “Gimme Some Lovin’” ou “I’m A Man”, mas isso não impede do álbum ser o melhor registro de longa duração do conjunto. Incluiu um hit menor, “When I Come Home”, e “Dust My Blues”, que satisfaz, mas sem conter o veneno da versão de John Mayall, por exemplo. Nessa altura, o SDG não sabia se seguiria o caminho do R&B e do blues, ou do pop psicodélico.

A imprensa britânica aproveitava para deixar escapar que a relação entre Spencer Davis e Steve Winwood não era das melhores. Davis fez questão de se explicar ao jornalista Keith Altham, do NME: “Eu já disse isso antes e vou dizer novamente. Quando Steve quiser sair da banda, ele irá sair. Ele é muito talentoso e tenho certeza que um dia ele irá tentar algo com uma grande banda ou num outro campo sonoro. Atualmente estamos felizes em tocar juntos, então essa coisa de dizer que somos ‘inimigos mortais’ não está absolutamente com nada. Nos conhecemos há muito tempo. Eu desejei que Steve surgisse como a cara dessa banda, pois ele é jovem e solteiro, então isso é bom pra gente”.

Altham, no entanto, tinha más notícias aos fãs. Havia presenciado que os integrantes não mais falavam entre si, durante uma entrevista que realizou no backstage do programa televisivo Top Of The Pops. Na ocasião, o jornalista perguntou a Muff se seu irmão mais novo estava deixando o conjunto. O baixista respondeu: “Sim, é verdade, e todos nós estamos deixando o SDG junto com Steve”. Altham havia sugerido ainda que Spencer entrevistasse Steve para o especial a ser publicado na revista, porém o empresário do grupo interveio e disse que aquilo seria impossível, pois os dois não estavam mais se falando. Uma testemunha ocular chegou a flagrar a dupla se pegando no tapa dentro da van, após um show.

O próximo single parecia extravasar justamente essa tensão. “I’m A Man” era enigmática, afirmativa, quase tribal, ou até mesmo latina – obviamente uma aposta no mercado norte-americano, que deveria ser finalmente conquistado pelo grupo naquele ano que estava começando, 1967.

Evidentemente, aquilo não aconteceu, já que “I’m A Man” foi o último compacto do SDG com os irmãos Winwood – Steve foi fundar um novo combo mais condizente com aquele período, o Traffic; e Muff foi ser executivo, produtor e descobridor de talentos da Island. “Aqui estamos nós, com dois dos maiores singles de nossas vidas para promover, e nenhuma banda para executá-los ao vivo”, lamentou Spencer Davis na época.

Steve se mandou para o campo, onde repensou sua carreira e plantou as sementes do Traffic. Apareceu na Melody Maker falando: “Será que agora vão me aceitar como músico ou como pop star? Definitivamente eu irei mudar, em diversos sentidos. Ainda não sei como, mas vou mudar minha aparência, minha imagem. Gostei do que fiz com Spencer até aqui, mas agora não gosto mais. Tenho que acertar as minhas coisas”.

Spencer Davis também seguiu em frente, manteve Pete York na bateria e escalou os substitutos para os irmãos Winwood. Eddie Hardin, ex-integrante do A Wild Uncertainty, veio para o Hammond e Phil Sawyer, ex-Cheynes, Fleur de Lys e Shotgun Express, veio para a guitarra. Depois, esse último foi substituído por Ray Fenwick, ex-The Syndicats e After Tea. “Time Seller” foi o próximo single, e tinha um feeling meio Procol Harum. O SDG continuou lançando compactos e LPs anos 1970 adentro, mas nunca mais conseguiu repetir o furor de sua formação clássica dos anos dourados da cena mod.

Texto originalmente publicado na pZ 47

  1. André Eduardo da Silva Santos

    adorei!gosto dessa banda pra caramba e sou fã confesso do Steve Winwood… e da trajetória dele com o Traffic e o Blind faith… sem contar na participação em Eletric ladyland de Jimi Hendrix!até na carreira solo dele no pop dos anos 80!e torço para que venha para o Brasil!!já que esta em turnê com o Tom Petty e Heartbreakers na Europa!!

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